Raf regressa ao palco do Sanremo 2026 com a canção Ora e per sempre, composta em parceria com o filho Samuelee e dedicada à sua história de amor com a mulher, a coreógrafa Gabriella Labate. Na noite das cover, a apresentação ganha um desenho familiar: a filha Bianca participa ao lado dele, enquanto Gabriella assina a direção artística e as coreografias — um retrato público da intimidade que se transforma em espetáculo.
“Ter minha família aqui me ajuda a viver tudo com mais serenidade. Estar reunidos nesta ocasião torna tudo mais leve, apesar dos muitos compromissos. Parece quase uma pequena pausa”, confidencia o cantor, compondo a cena de um artista cuja presença pública é também um reflexo do privado.
Nascido em 1959, Raf tem 67 anos e uma rotina que é quase uma mise-en-scène de equilíbrio. Segundo o Corriere della Sera, sua dieta privilegia preparações essenciais e ingredientes frescos: o dia começa muitas vezes com iogurte, frutas e cereais integrais; o almoço reserva espaço para verduras, arroz ou peixe; à noite, porções contidas com proteínas leves e hortaliças da estação. O azeite extravirgem é o fio condutor da cozinha e um copo de vinho tinto é permitido na convivialidade, com moderação.
O laço com as origens pugliesas permanece vivo — lembranças gustativas que atravessam décadas. Quando jovem, longe de casa, sua mãe enviava pacotes com friselle, salumi e conservas em óleo: sabores que mantinham um vínculo concreto com a família e a identidade. Mesmo dividindo o tempo entre Itália e Flórida, pratos como orecchiette alle cime di rapa, que ele ainda prepara ocasionalmente, são um gesto de pertença. “Só isto, hein. Na cozinha — conclui ele com leve ironia — fui substituído por minha esposa e por meus filhos.”
Esta é a quinta participação de Raf no Festival e seu retorno foi celebrado com um look elegante total black e aplausos calorosos. Antes de sua performance, foi apresentado assim por Laura Pausini: “É um dos símbolos da música italiana”. A canção que trouxe a Sanremo mira no amor ao longo do tempo, nas permanências e nas transformações — como se a voz dos anos 80 ainda encontrasse um presente para se anunciar.
Voz nascida entre sintetizadores, neon e baladas sentimentais, o artista mantém um presente possível dentro de sua história. Raffaele Riefoli deixou a Puglia ainda jovem, estudou arte e arquitetura em Florença e tocou em clubes de Londres com os Cafè Caracas — grupo fundado com Ghigo Renzulli, futuro guitarrista dos Litfiba — onde atuava mais como baixista do que como cantor. O ponto de virada aconteceu em meados dos anos 80 com o hit Self Control, gravado em inglês e construído sobre uma noite eletrônica e inquieta que logo se tornou clássico; a versão de Raf conquistou as paradas nacionais.
O retorno ao Festival, agora embalado pela presença da família, funciona como um espelho do seu tempo: não é apenas nostalgia, mas um reframe da própria carreira — o roteiro oculto de alguém que continua a transformar memória pessoal em canção coletiva. Em palco, Raf não é apenas o cantor dos anos 80; é a figura que traduz amor, identidade e continuidade, dando ao público a sensação de que algumas vozes atravessam décadas sem perder a capacidade de contar o que nos une.






















