Por Chiara Lombardi — No palco monumental do Sanremo 2026, houve um momento que soou menos como um número competitivo e mais como uma cena cuidadosamente iluminada de um filme íntimo: Raf, com o olhar fixo na plateia, cantou sua nova canção "Ora e per sempre" direcionando-a à esposa, Gabriella Labate. A performance foi, em essência, uma declaração pública de afeto — um diálogo entre a canção e a pessoa que a inspirou.
Em um dos trechos mais pungentes, Raf entoou: "Stringimi forte quando il sole sorgerà, insieme ci troverà ci troverà", e a câmera captou repetidas vezes o rosto de Gabriella, com os olhos úmidos e a emoção visível. A reciprocidade do olhar — artista e musa, palco e plateia — transformou o instante em algo que vai além do entretenimento: tornou-se um espelho do nosso tempo, onde o íntimo é performado e, ao mesmo tempo, preservado.
Ao final da interpretação, Raf não conteve a emoção e agradeceu publicamente: "É stata la mia ispirazione per questo brano". Ele explicou, em seguida, a origem afetiva do tema: um bilhetinho escrito à máquina contendo a promessa feita no casamento do casal, celebrado em Cuba em 1996. Na cerimônia, o oficiante utilizou a fórmula em espanhol equivalente a "Até que a morte nos separe", e Raf disse ter reescrito aquela promessa com suas próprias palavras — surgindo assim o título e o ancoramento emocional de "Ora e per sempre".
Esse gesto — reelaborar uma fórmula antiga e torná-la pessoal — funciona como um pequeno reframe da memória: não só um ajuste linguístico, mas uma reinterpretação afetiva que carrega a biografia do casal. Na perspectiva cultural, a cena remete à semiótica do voto conjugal como roteiro oculto da sociedade, onde gestos privados ganham dimensão pública no palco do festival. O Festival de Sanremo, nesse sentido, continua sendo um cenário de transformação, capaz de traduzir intimidade em narrativa coletiva.
Como analista que observa a interseção entre entretenimento e identidade, vejo na performance de Raf uma elegância discreta: nada de espetáculo vazio, mas uma composição afetiva que dialoga com o público europeu acostumado a ver no festival mais do que música — uma espécie de documento emocional que registra amores, memórias e promessas. A canção, portanto, funciona tanto como peça musical quanto como peça de memória.
Para quem acompanha o zeitgeist da cultura pop, o momento reafirma uma máxima curiosa: a celebridade pode transformar um bilhete antigo em um roteirinho público, e essa tradução da intimidade em arte volta para nós como questionamento — o que preservamos quando declaramos, e o que reinventamos quando cantamos?
Em resumo, a apresentação de Raf no Sanremo 2026 com "Ora e per sempre" não foi apenas uma exibição vocal, mas uma pequena narrativa audiovisual sobre promessa, memória e reinvenção. Gabriella, comovida, foi mostrada como a musa real por trás da composição — e o gesto de Raf, ao ressignificar um voto de casamento, transformou o palco em um confessionário elegante, como se a canção fosse uma foto antiga revelada à luz do presente.






















