Salve este texto e volte quando quiser: trata-se de uma investigação cultural sobre um dos paradoxos mais curiosos da história da música italiana. Em plena era em que o Festival de Sanremo domina audiências e vitrines midiáticas, é quase inacreditável lembrar que houve um tempo em que o festival parecia ter sido esquecido — não só pelo público, como também pelas próprias emissoras.
Nasci em 1954 e comecei a trabalhar cedo. Aos 21 anos, era voluntária não remunerada no programa Momento Sera. A memória jornalística daquele período permanece vívida: lembro da cobertura, dias depois, do assassinato de Pasolini em 1975 — eu estava lá, na periferia do relato público — e, antes disso, do quase desaparecimento do Sanremo do cenário televisivo.
O ponto de inflexão veio em 1973. Foi um eclipse gradual e, ao mesmo tempo, abrupto: o festival atravessou um declínio tão acentuado que apenas a última noite foi exibida na televisão; as outras duas noites foram relegadas às ondas do rádio. Para a geração jovem daquele momento, a música que importava vinha do outro lado do Atlântico — Led Zeppelin, Genesis, Lou Reed — e o que se passava no palco de Sanremo parecia, cada vez mais, um relicário de um folclore musical provinciano.
O arquivo do Corriere della Sera ilustra bem o clima. Em 1º de fevereiro de 1973 um título discreto anunciava: “In forse il Festival di Sanremo” — e quatro dias depois vinha a redução ao essencial: “Radio certa, tv dubbia, ma il Festival si farà”. A vitória coube a Peppino Di Capri, com “Un grande amore e niente più”: uma escolha previsível, quase um fechamento de ciclo. Naquele ano, Sanremo não conseguiu perfurar a página principal do debate cultural; o festival parecia falar um idioma que a Itália jovem já não conhecia.
Mas por que esse desapego? Parte da resposta está no roteiro oculto da sociedade: os anos 1970 foram uma década de turbulência política e de transformação dos códigos culturais. O país vinha ainda pulsando com as ondas de 1968 e caminhava para 1977, um ano marcado por tensões e conflitos. Sanremo, naquele momento, apareceu como um espelho opaco — incapaz de refletir a velocidade e a urgência das mudanças sonoras e identitárias do período.
O episódio não existiu no vácuo. Em 1974, o referendo sobre a abolição do divórcio ofereceu outro sinal do humor público: o “No” à abolição venceu por ampla margem (59,26%), demonstrando que as prioridades da discussão pública eram outras, e nem sempre alinhadas com a programação musical tradicional.
Como observadora cultural, vejo esse episódio como um reframe do que entendemos por sucesso midiático: a supremacia atual de Sanremo nas audiências modernas só enfatiza o caráter cíclico das instituições culturais. O que foi marginal pode voltar a ser central quando o festival souber ler novamente o espírito do tempo — a mesma lição que a história do rock, da rádio e da televisão nos ensina repetidas vezes.
Há, finalmente, um elemento de memória pessoal: revisitar esses anos é entender que o espetáculo nunca é só espetáculo. É contexto, é política, é retícula de identidades. Sanremo nos anos 1970 foi um espelho que se turvou — e essa turvação conta, talvez melhor do que uma vitória óbvia, o roteiro oculto da sociedade italiana em transformação.






















