Por Chiara Lombardi — Espaço Espresso Italia
O Festival de Sanremo de 2026 tem sido, para muitos, um espelho do nosso tempo: parte espetáculo, parte enigma. E no centro desse enigma está, inacreditavelmente, Laura Pausini. Quem acompanha a cantora desde os 18 anos, quando ela estreou exatamente no palco do Ariston em 1993, sente que há um roteiro oculto sendo escrito de forma tímida — como se a peça preferisse deixar a protagonista em segundo plano.
Não se trata de uma crítica à artista, mas de uma leitura do cenário: este Sanremo 2026 está mais contido e já registra queda de audiência em streaming. Ainda assim, existe um trunfo no elenco que, por razões misteriosas, não tem sido usado em plenitude. Pausini não é apenas uma voz; é uma performer, apresentadora e presença pública que transforma palcos em arenas de empatia. Em trajetórias como a do show com Paola Cortellesi (2016), as participações em programas como Che tempo che fa com Fabio Fazio, e na versão espanhola do talent La Voz, ela demonstrou versatilidade televisiva.
Memórias coletivas ajudam a desenhar esse argumento. Em 21 de junho de 2009, no concerto Amiche per l’Abruzzo em San Siro, Pausini destacou-se entre nomes igualmente grandes — Giorgia, Gianna Nannini, Elisa — e não apenas como cantora: foi anfitriã, líder de cena, figura de magnetismo. Sua voz, seja cantando ou dialogando com a plateia, parecia flutuar uma oitava acima do comum. É essa dimensão que o festival poderia explorar mais.
Houve sinais desse magnetismo também neste Sanremo: o dueto com Achille Lauro gerou inúmeros memes nas redes, com usuários brincando que Pausini “engoliu” a câmera e o palco. Nos intervalos, vídeos do TikTok mostram cenas de Pausini conduzindo o público, fazendo plateia cantar, interagindo com leveza — pequenos flashbacks de uma artista que sabe comandar o espaço cênico. No evento Tempo delle donne, realizado pela nossa redação na Triennale de Milão, ela nos prendeu por três horas entre conversas e risadas: uma prova de que sua presença televisiva é muito mais vasta do que o tempo de microfone que lhe é dado em Sanremo.
Então a pergunta permanece: é escolha artística manter um perfil discreto? Ou é decisão da produção limitar o potencial de quem poderia oxigenar a transmissão? Considerando o currículo musical — dez turnês mundiais e a décima primeira iniciando em março —, e sua familiaridade com o palco e a câmera, parece quase um desperdício não capitalizar mais sua energia. A scaletta (escalação) do festival mostra possibilidades; faltam nervo e coragem para reinventar breves zonas do palco em que Pausini poderia atuar como co-condutora, performer de números especiais ou ponte entre atos.
Em termos de semiótica do viral, o que acontece com Pausini no Sanremo 2026 diz muito sobre o medo da televisão de se expor ao imprevisível. Quando um artista com seu histórico é limitado à função de participação episódica, perdemos cenas que poderiam virar memória coletiva — aquelas imagens que atravessam gerações e redes. O público sente isso e reage: os memes, os clipes, os comentários são sintomas de uma vontade de ver mais, ouvir mais, sentir mais.
Se o festival quer recuperar fôlego, deveria lembrar que há talentos que não apenas cantam; eles reescrevem o ritmo do programa. Laura Pausini, com sua história no Ariston e uma carreira que atravessa décadas, pode ser essa chave. Resta saber se alguém na direção ainda quer girá-la.
Data: 27 de fevereiro de 2026





















