Por Chiara Lombardi — Em um depoimento que soa como um pequeno close-up em preto e branco sobre memórias familiares, o apresentador e encenador Pino Strabioli relata detalhes íntimos de sua infância durante sua participação em “Ciao Maschio”, conduzido por Nunzia De Girolamo. A entrevista vai ao ar no sábado, 31 de janeiro, às 17h05, na Rai1, e desenha um retrato humano que transcende o relato pessoal: é também um reflexo do nosso tempo e das dinâmicas afetivas que moldam identidades.
Strabioli lembra um episódio marcado pela confusão infantil e pela percepção precoce de segredos de adultos. “Tinha 4 ou 5 anos”, conta ele. “Estávamos na Sabina, na casa dos meus avós. Meu pai me levou consigo. Chegamos a uma casa, uma mulher abriu a porta. Ele entrou e eu fiquei quase uma hora do lado de fora, havia galinhas por ali. Entendi que eu não podia entrar, não podia bater. Ali acontecia algo que eu não devia saber.”
Esse fragmento de memória é contado sem vitimismo, com a mesma precisão de um diretor que remonta uma cena. O que emerge é uma infância marcada pela observação e pela solidão: Strabioli descreve-se como um bambino molto solitario, profundamente ligado às saias da mãe. A dependência maternal, explica, nasceu em parte da própria solidão dela — “por solidão, para não se sentir sozinha, com um pouco di egoismo”, diz ele — e gerou uma infância de observador atento, sem colegas, sem escola infantil.
A mãe aparece como figura central, simultaneamente amparo e cárcere emocional: uma mulher levemente depressiva, insatisfeita com a própria vida, que acabou por manter o filho mais próximo. É uma imagem familiar que remete àquelas grandes personagens do cinema neorrealista: proteção que encena clausura, afeto que se confunde com dependência.
O relacionamento com o pai é narrado em tons distintos. Não havia julgamento explícito, lembra Strabioli: “Com meu pai, acho que havia um acordo tácito. Você cuida da sua vida, eu cuido da minha. Ele nunca me julgou.” Um pacto de distanciamento que explica em parte a postura de observador do artista — alguém que aprende a olhar para o mundo como quem compõe cenas e diálogos.
Ao trazer à tona essas memórias no estúdio, Strabioli não apenas confessa fragmentos de sua história; ele nos convida a olhar o roteiro oculto que estrutura muitas famílias: ausências disfarçadas, dependências que se revestem de cuidado, e o modo como essas dinâmicas moldam a subjetividade. É um episódio que funciona como um espelho cultural — a semiótica de pequenos gestos e silêncios que cruzam gerações.
Para quem aprecia o entretimento que se transforma em análise social, a participação de Pino Strabioli em “Ciao Maschio” promete ser mais que uma entrevista: é um reframe sobre como memórias privadas contam, também, a história coletiva de afetos e ausências.





















