Por Chiara Lombardi — Em uma temporada em que o palco de Sanremo volta a ser espelho do nosso tempo, o produtor e compositor Piero Cassano, cofundador dos Matia Bazar, retorna ao Festival no dia 23 de fevereiro para receber o prêmio DietroleQuinte. Não se trata de um adeus: é, nas palavras dele, “uma oportunidade para agradecer e contar, sem filtros, a minha visão sobre a música de ontem e de hoje”.
Com uma carreira que cruza a produção, a autoria e a inquietação estética, Cassano é figura essencial da história italiana — participou de Sanremo 21 vezes e venceu tanto como artista quanto como autor. Ainda assim, seu olhar sobre a cena contemporânea é cortante: “Vivemos em um coma musical”, declara na entrevista à Adnkronos, criticando uma cultura que, para ele, valoriza mais a fama do que a paixão.
Para Cassano, voltar ao Festival para receber o prêmio é também um gesto de memória e agradecimento. “É maravilhoso porque me permitirá agradecer a todas as pessoas que me ajudaram na minha trajetória”, afirma. Ele recusa a ideia de que o reconhecimento seja apenas para “velhos”: enxerga-o como um estímulo para olhar adiante, sustentado por uma carreira que descreve como, em parte, invejável.
Ao lembrar os companheiros de jornada, Cassano cita os nomes fundamentais dos Matia Bazar: Carlo Marrale e, com saudade, os colegas desaparecidos Giancarlo Golzi, Aldo Stellita e Mauro Sabbione. Um capítulo à parte é reservado a Antonella Ruggiero — com quem, ressalta ele, não mantém contato há anos. Depois de uma diatribe nas redes no verão passado, Cassano explica que apenas expressou seu pensamento sobre declarações que, na sua visão, foram pouco delicadas em relação aos colegas falecidos. “Não nos falamos há anos. A última vez talvez foi em 2008-2009. É inútil insistir quando não há resposta; depois de um tempo, evito e fecho”, conta.
O reencontro com Eros Ramazzotti — que pisará novamente no Ariston a quatro décadas da vitória com Adesso Tu — traz memórias profissionais importantes. Cassano lembra com precisão a gênese daquele sucesso: “Tudo começou antes com ‘Una storia importante’. Trabalhamos em uma equipe excepcional com a DDD, que me deu confiança como compositor e produtor. Fizemos as coisas de verdade”. Ele escreveu e produziu os primeiros sete álbuns de Eros, descrevendo aquele período como “dez anos da minha vida”.
Há também a confissão íntima: o preço da entrega total à música. “Tive que pedir desculpas e, ao mesmo tempo, agradecer inúmeras vezes à minha família. Passei anos negligenciando minha mãe, minha mulher, meus filhos — tanto na época dos Matia quanto com Eros. Mas a verdade é que isto não é um trabalho feito pela fama; é uma paixão que te absorve completamente.”
O percurso de Cassano cruza ainda artistas como Mina — graças ao maestro Vito Pallavicini, que chegou a escrever para Elvis Presley — e Anna Oxa, cujo “Quando nasce un amore” lhe trouxe um lugar no mercado latino-americano, um sucesso pelo qual guarda carinho especial. Com franqueza e sem acomodação, o compositor genovês continua a ler o presente musical como um cenário em transformação, propondo um reframe: se a música hoje é um espelho do tempo, há que se recuperar a densidade por trás das luzes.
Ao aceitar o prêmio DietroleQuinte, Piero Cassano não celebra apenas a própria história — celebra o ofício escondido que moldou canções e carreiras. E, como todo grande narrador cultural, ele nos convida a escutar com mais atenção o roteiro oculto que a indústria insiste em ofuscar.






















