Por Chiara Lombardi — Em uma conversa franca para o podcast da BBC Eras, o músico britânico Phil Collins abordou os anos mais difíceis da sua vida, revelando uma sequência de problemas de saúde que chegaram a ameaçar tanto sua carreira quanto sua autonomia. Aos 75 anos, que completa em 30 de janeiro, Collins descreve um período em que “tudo o que podia dar errado, deu errado”.
No quinto e último episódio do programa, conduzido pela jornalista Zoe Ball, o ex-líder do Genesis relembra a origem dos seus males: um acidente em 2007, durante a turnê de reunião da banda — cuja etapa romana culminou com um grande show no Circo Massimo — que causou danos às vértebras superiores do pescoço e lesões nervosas permanentes. As cirurgias seguintes tentaram reparar o quadro, mas trouxeram efeitos colaterais devastadores: perda de sensibilidade nos dedos, impossibilidade de tocar bateria ou sequer segurar talheres, além de grandes dificuldades para caminhar.
A trajetória se complicou com o abuso de álcool. Collins confessa que não era daqueles que ficavam embriagados à noite, mas consumia bebidas durante o dia e reconhece que exagerou. “Não cheguei a ficar totalmente bêbado, embora eu tenha caído algumas vezes. Foi algo que me envolveu e me levou a passar meses no hospital”, contou no podcast. O abuso, somado a problemas renais, agravou o quadro: “Meus rins estavam destruídos”, disse.
Como em um roteiro onde múltiplos conflitos convergem, Collins relata ter contraído covid durante uma internação, o que piorou ainda mais a função renal e criou um emaranhado de complicações simultâneas. Em meio a rumores alarmantes — inclusive declarações públicas que chegaram a sugerir que o cantor estava em cuidados paliativos — seu representante precisou desmentir boatos sobre um estado terminal.
Hoje, Phil celebra dois anos de sobriedade. A recuperação é lenta e marcada por adaptações: ele caminha com auxílio de outra pessoa ou de uma bengala, e afirma que um dos joelhos voltou a funcionar. Para garantir segurança e disciplina no tratamento, Collins conta com uma enfermeira 24 horas por dia que o assiste em casa e o ajuda a manter a rotina de medicação.
Apesar dos percalços, o músico não perdeu o desejo de se expressar artisticamente. “As coisas que me aguardam, além de voltar plenamente à forma e à saúde, incluem voltar a fazer música”, confidenciou. Há algo de cinematográfico nessa determinação: o artista que sofreu uma queda na narrativa pessoal, agora trabalha para reescrever o roteiro de sua vida, resgatando a voz que marcou gerações com canções como “In the Air Tonight“.
Como observadora do eco cultural que figuras como Collins deixam, é inevitável ver nessa história um espelho do nosso tempo — a fragilidade do corpo diante das demandas da fama, a semiótica das recaídas e da recuperação, e o reframe da identidade artística frente às limitações físicas. A entrevista no Eras funciona como um pequeno documentário íntimo: um artista em processo de reinvenção, tentando transformar dor e perda em um novo capítulo criativo.
O episódio com Phil Collins está disponível a partir de 26 de janeiro na plataforma do podcast da BBC. Para além da notícia, a sua narrativa nos convida a pensar no lugar do corpo na biografia pública e na forma como a cultura consome e reescreve trajetórias humanas.




















