Com a elegância de quem transforma cada gesto em uma declaração estética, Patty Pravo regressa ao palco do Sanremo para marcar seis décadas de carreira. Em competição pela 11ª vez com a canção “Opera”, assinada por Giovanni Caccamo, a artista apresenta não apenas um single, mas um manifesto sobre autenticidade: “A verdadeira transgressão hoje é ser você mesmo e não se conformar com ninguém”.
O tema atravessa toda a concepção do projeto homônimo, que é o seu 29º álbum de inéditos e tem lançamento marcado para 6 de março. Produzido por Taketo Gohara, Opera é descrito por Patty como “beleza, cultura, música e arte”: um título que não soa casual, dado o plano de apresentar o disco dentro de museus de destaque — entre eles as Gallerie d’Italia em Milão e Nápoles, o Palazzo Medici Riccardi em Florença e a Galleria Nazionale d’Arte Moderna em Roma. É um gesto que relembra o papel da música como ponte entre memória, patrimônio e experiência sensorial, um verdadeiro convite a redescobrir espaços públicos como cenários de formação de identidade.
Trabalhando por mais de um ano na seleção sonora do álbum, Patty buscou “sonoridades particulares” e letras de peso. O resultado foi um repertório costurado por nomes contemporâneos de destaque: Giuliano Sangiorgi, Morgan, La Rappresentante di Lista, Francesco Bianconi, Serena Brancale, Raphael Gualazzi, entre outros colaboradores. Essa colcha de assinaturas traduz a sua natureza eclética — uma trajetória que atravessou pop, rock, canção de autor e experimentação — e reafirma a sua inclinação pela reinvenção permanente.
Para a tradicional serata delle cover no Sanremo, Patty fará uma homenagem íntima e sentida a Ornella Vanoni, interpretando “Ti lascio una canzone” ao lado do primeiro bailarino do Teatro alla Scala, Timofej Andrijashenko. “Não podia deixar de homenagear Ornella. Uma grande artista e uma amiga que me falta muito”, confidencia, antecipando que será um quadro onde dança e música convergem em uma única imagem — uma pintura em movimento.
Ao olhar para os 60 anos de estrada, a cantora não busca o escapismo nostálgico, mas permite-se uma ternura contida quando se lembra da jovem loira do Piper. “Não olho muito para o passado, mas quando vejo aquela menina sinto simpatia e ternura”, diz, lembrando a primeira noite em que, ao dançar no clube, respondera afirmativamente à pergunta se sabia dançar tanto quanto cantar. A declaração, simples, revela a continuidade de um impulso criativo que permanece intacto: “Tenho ainda muita vontade de viver e de me expressar”.
Mais do que um retorno ao festival, a presença de Patty Pravo em Sanremo funciona como um refrão cultural: um lembrete de que a singularidade é um ato de resistência num tempo de homogeneizações digitais. Opera não é apenas um disco; é um convite para habitar a beleza, proteger a diferença e reencontrar a cultura como um espaço público de formação do olhar — o roteiro oculto que define quem somos.
Em um cenário de transformação mediada por algoritmos e tendências efêmeras, a proposta de Patty soa como um espelho do nosso tempo: relembrar, através da música e da arte, que a verdadeira revolução pode ser tão simples e profunda quanto manter-se fiel a si mesmo.





















