Por Chiara Lombardi — Em meio ao brilho e à atenção coletiva de Sanremo, uma faixa ainda inédita de Ditonellapiaga intitulada “Miss Italia” provocou mais do que curiosidade: abriu uma disputa de marca e um debate cultural sobre representação feminina. Patrizia Mirigliani, diretora e titular do concurso, falou com firmeza ao Espresso Italia sobre o que chama de uso indevido do nome e do risco de reforçar estereótipos que o concurso busca há décadas desconstruir.
Mirigliani recorda que Miss Italia não é apenas um rótulo simbólico, mas um marca histórica que carrega reputação construída ao longo de 87 anos: “Miss Italia è un marchio e quando si ha a che fare con un marchio storico… ci si dovrebbe chiedere se l’idea vada sottoposta e condivisa con chi di quel marchio è titolare.” Segundo ela, nem a artista nem sua gravadora consultaram os detentores da marca antes de adotar a denominação no texto.
Em resposta às alegações de que a canção seria de natureza autobiográfica, Mirigliani afirmou que, ao analisar o texto — que não divulgou publicamente, mas que já foi examinado por seus advogados —, há elementos de representação que não correspondem à realidade do concurso. Por isso, os assessores legais de Patrizia Mirigliani estão avaliando “ações judiciais voltadas a inibir o uso da denominação ‘Miss Italia’ e a obter ressarcimento por danos”.
Mirigliani fez uma observação pungente que furta o tom apenas pessoal para atingir o coletivo: “A volte le peggiori nemiche delle donne sono le donne” — às vezes, as piores inimigas das mulheres são as próprias mulheres. Essa frase dá o tom de um desconforto maior: não se trata apenas de proteger um emblema, mas de preservar um cenário de transformação social que o concurso reivindica representar — inclusão, pluralidade corporal e caminhos diversos para a projeção pública das mulheres.
Ela também criticou a aparente superficialidade do que descreve como sensacionalismo: por que demolir “pietre miliari” da história cultural italiana sem diálogo? Afirmou ainda que Miss Italia sempre foi, nas suas palavras, um “talent ante litteram”, um espaço que abriu portas para muitas carreiras femininas, aproximando-se do vivido das mulheres e do tempo presente.
Há também um componente institucional nesta queixa: Mirigliani chamou atenção para a responsabilidade da casa discográfica da artista, lembrando que, quando se lida com um logotipo e um nome protegido, a consulta prévia é procedimento básico. Em tempos em que a cultura pop funciona como espelho do nosso tempo, a apropriação sem autorização ativa não apenas o litígio jurídico, mas pergunta o que queremos dizer quando ressignificamos símbolos nacionais.
Enquanto isso, Sanremo observa. A canção de Ditonellapiaga permanece inédita e a polêmica sobe de tom: é um embate entre liberdade criativa e proteção de um património cultural e comercial. No palco da era digital, onde um verso pode reconfigurar narrativas, este caso convida a um reframe: até que ponto a ironia artística justifica tocar marcas que carregam histórias e memórias coletivas?
Como observadora cultural, enxergo a controvérsia não apenas como um conflito legal, mas como um microcosmo do roteiro oculto da sociedade contemporânea — onde marcas, memória e representações de gênero se encontram e renegociam seus sentidos. A cena ainda está em construção; a próxima movimentação poderá decidir se prevalece o diálogo simbólico ou a tutela juridicamente estrita do que se considera patrimônio cultural.






















