Paolo Sorrentino desembarcou em Bergamo para acompanhar a exibição de seu novo filme, La grazia, no Cinema Conca Verde — uma sessão dominical que confirmou o fascínio contínuo do diretor sobre a cena política italiana e a biografia ficcionalizada. A recepção foi calorosa: sala lotada (460 lugares vendidos antecipadamente) e público que não se conteve diante do cineasta premiado com o Oscar, buscando selfies e apertos de mão após a projeção.
Com a elegância de quem sabe transformar observações lúcidas em imagens vívidas, Sorrentino abriu sua fala definindo o cinema como “stupendo” e fazendo uma brincadeira sobre bilheteria: que La grazia estaria faturando mais do que Zalone — uma piada recebida entre aplausos e sorrisos contidos. Mas a obra em si se impõe sem necessidade de artifícios: é um filme de caráter civil e reflexivo, que entra direto no repertório autoral do diretor, ao lado de títulos como Il Divo e Loro.
Protagonizado por Toni Servillo — premiado por sua atuação na última Mostra de Veneza — o longa acompanha um Presidente da República às voltas com dúvidas no fim do mandato. Sorrentino resumiu a construção desse personagem com irreverência e precisão: “Abbiamo rubacchiato qualcosa — da Mattarella, da Scalfaro, da Napolitano. Ma è più o meno tutto inventato”. A frase revela o tom do filme: um espelho que remexe memórias institucionais para criar um roteiro próprio, onde a verdade histórica é reconfigurada pela necessidade dramática.
No aspecto técnico, o diretor explicou escolhas práticas e simbólicas: não sendo possível rodar dentro do Quirinale, muitos interiores foram recriados em Turim pela afinidade arquitetônica com certos palácios romanos, enquanto os exteriores do Quirinale e vistas de Villa Medici foram captadas em Roma para emprestar verossimilhança ao cenário presidencial. Esse reframe espacial funciona como um recurso semiótico — a geografia do filme negocia autenticidade e ficção, como em um plano que distancia e aproxima ao mesmo tempo.
A apresentação em Bergamo também foi momento de reconhecimento. Sorrentino trouxe consigo a diretora de fotografia Daria D’Antonio, celebrada por ter sido a primeira mulher a receber o David di Donatello na categoria de melhor fotografia, por seu trabalho em È stata la mano di Dio. Ao ser aplaudida, D’Antonio recebeu os louros com a discrição de quem ilumina mais do que busca luz própria — uma metáfora perfeita para a colaboração atrás das câmeras.
Sobre a cronologia criativa, Sorrentino comentou que La grazia nasceu antes de Parthenope, que ele definiu como “mais penoso” de concretizar. Brincou sobre antecipar seu próprio declínio físico, em uma declaração que misturou autocrítica e humor autorreferencial, e voltou a ser ovacionado. O tom das observações do diretor, ao falar do processo e das escolhas, deixou claro o que o filme pretende: não apenas entreter, mas oferecer um espelho do nosso tempo — uma reflexão estética e política que reconfigura lembrança e presente.
Distribuído pela PiperFilm desde 15 de janeiro, La grazia se impõe como mais um capítulo da filmografia de Sorrentino dedicado às figuras que habitam o panteão político italiano — não para biografar, mas para interrogar o papel da autoridade, a rotina do poder e os pequenos gestos que definem legados. Em Bergamo, o encontro entre público, diretor e equipe revelou que o cinema, quando bem calibrado, continua sendo o roteiro oculto da sociedade: uma forma de ver, entender e discutir o que nos governa.






















