Por Chiara Lombardi — O psiquiatra turinense Paolo Crepet chega à ChorusLife Arena no dia 19 de fevereiro com o monólogo que empresta o título ao seu livro, “Il reato di pensare”. Em tom de analista cultural mais do que de polemista, Crepet propõe uma reflexão sobre censura, autocensura e os contornos da liberdade num cenário dominado pelas redes.
«Meu defeito é que, há trinta anos, eu penso coisas que depois se confirmam», confessa Crepet — como quem reclama o papel de profeta e, ao mesmo tempo, aplica um reframe ao presente. Depois de observar a violência entre jovens, ele diz ter antecipado temas que hoje explodem na praça pública digital: «quando escrevi “Il reato di pensare” não havia Trump, nem os milhares de mortos em Teerã, nem o caso de Pucci em Sanremo», enumera, traçando uma linha entre memória premonitória e análise social.
Na entrevista, Crepet apoia medidas como a do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, que pretende proibir o acesso às redes sociais a menores de 16 anos. Para ele, se as plataformas criadas para criar dependência transformam um usuário em algo semelhante a um vício — «um heroínâmano não é uma pessoa livre» — então limitar o acesso torna-se uma defesa da capacidade de pensar livremente. Aqui, a tecnologia deixa de ser apenas ferramenta e se mostra como uma cultura que reescreve o roteiro da sociedade.
Ao falar de personalidades como Fabrizio Corona, cujos perfis foram apagados, Crepet evita polemizar: «Corona é um senhor de quem eu não falo». O que lhe interessa, afirma, é a arquitetura dos meios: «por que permitimos que Tizio, Caio e Semprônio adentrem a vida de Marco, aluno do segundo ano do ensino médio, para chamado-lo de gordo ou expor a intimidade de alguém?» Essa pergunta aponta para o problema estrutural do ecossistema digital — um espelho indecente do nosso tempo.
O caso de Pucci em Sanremo serve de exemplo para sua distinção fundamental: liberdade não é sinônimo de impunidade. Crepet, que se declara libertário, traz uma imagem do Hyde Park londrino — onde qualquer um sobe numa caixa e fala — para lembrar que a liberdade sempre convive com limites. «Há um único limite: não insultar os soberanos», ironiza, antes de corrigir em tom sério: «eu acredito que o limite são as ofensas pessoais. Ofensas pessoais não são sátira. Satira é crítica ao poder, carregada de ironia e análise, não desrespeito gratuito». Para ele, as ofensas «me nauseiam».
Crepet defende a autorregulação: artistas e intelectuais devem preservar uma ética do palco. «Eu mesmo subo ao palco, mas não humilho pessoas por serem gays ou por terem deficiências», esclarece — traçando uma linha clara entre a sátira que instiga o debate e o ataque que destrói a dignidade alheia.
Finalmente, o psiquiatra oferece conselhos práticos: são para adultos. «Não tenham medo de desligar o telefone às quatro da manhã», diz, como quem propõe um pequeno gesto ritual para retomar autonomia. Seus conselhos soam como um roteiro alternativo para a vida cotidiana: apagar o ruído para recuperar a voz interior e o espaço de pensamento livre.
O monólogo de Crepet promete ser menos um show de opiniões e mais um espelho cultural: um convite a repensar os termos da liberdade num tempo em que a palavra se confunde com o grito. Em cena estará não apenas um autor que revisita suas predições, mas um analista que nos desafia a escrutinar o roteiro oculto das tecnologias que nos moldam.






















