Por Chiara Lombardi — Em seu tom cortante e sempre pronto ao aforismo, Paolo Bonolis voltou a ocupar o centro do palco televisivo nesta segunda-feira, conduzindo a primeira das duas noites-evento de Taratata na Mediaset. O programa, com formato de “mini-Sanremo sem competição”, reúne nomes que são parte do cânone da música italiana: Biagio Antonacci, Emma, Elisa, Giorgia, Ligabue e Max Pezzali, que reinterpretam seus clássicos em duos e covers.
Produzido pela RTI em parceria com Friends TV e Double Trouble Club, Taratata é um formato nascido na França no início dos anos 1990 e que já teve quatro edições no prime time da Rai1 entre o final dos anos 1990 e o começo dos anos 2000. Bonolis, que tem familiaridade com grandes palcos (chegou a apresentar o Sanremo por duas vezes), descreve o encontro musical como “uma bela oportunidade de fruição”: “Gosto de brincar com a música, especialmente quando essa matéria sonora está nas mãos de grandes artistas. Não é uma competição, é uma forma diferente de escutar e revisitar canções que fizeram a história”, afirmou.
Sobre o Festival di Sanremo, Bonolis foi direto: não vê espaço para um terceiro passo seu naquele palco. “Acho que o Festival precisa de um binário narrativo. E esse binário não pode ser somente reduzido à competição. Para construir uma narrativa original e diversa, seria preciso incluir conteúdos e substâncias que há tempos não enxergo”, disse, lançando uma crítica ao cenário televisivo atual. Em sua leitura, a ausência de uma contra-programação robusta permite que a Rai se apoie sem esforço na “potência imensa” do Festival, evitando investir em novos roteiros de raconte.
O tema das redes sociais entrou na conversa com a mesma franqueza. “Eu não as tenho, então não sei quem me odeia”, brincou Bonolis, antes de constatar o peso que essas plataformas ganharam: “As redes são um novo vetor de palavra, informação e pensamento que condicionam a realidade — são a distorção desta época, algo que comprime a potencialidade de expressão. É um pecado.”
Do burburinho do dia, emergiu também o caso de Pucci. Bonolis reconheceu o talento do comediante e avaliou com empatia sua decisão de renunciar ao Festival após ataques recebidos: “Andrea é um comediante excelente; se ele preferiu se afastar diante das investidas, fez bem.” A fala reflete um cuidado em lidar com o efeito lupa das narrativas públicas, onde o rótulo e a repercussão podem sobrepor o texto artístico.
Na agenda do apresentador, a promessa de retorno de Il senso della vita para o outono aparece como uma fênix que insiste em renascer. Bonolis condicionou o retorno a uma cláusula prática: “Voltaremos, desde que a Mediaset tenha a discrição de estrear o programa às 23h30, e não à 1h40 — caso contrário, perde seu sentido.” A observação é, ao mesmo tempo, técnica e simbólica: o tempo da transmissão molda a recepção e, portanto, a narrativa cultural.
Como observadora do nosso tempo, é impossível não ver nesses episódios um espelho do que chamaria de roteiro oculto da sociedade: programas-evento que se repetem como ritos, plataformas que reescrevem reputações em instantes, e a nostalgia organizada de setlists que transformam memória coletiva em espetáculo. O que Bonolis propõe é simples e perturbador: recuperar substância e narrativas — não só formatos — para que o entretenimento volte a ser algo mais que um reflexo passivo do mercado.
Em um cenário de transformação midiática, a volta de Taratata é mais do que uma programação: é um testamento sobre como a música e a televisão podem, ainda, articular sentido. E Bonolis, entre a ironia e a crítica, permanece o maestro desconfiado desse novo ato.





















