Por Chiara Lombardi — No elegante salão televisivo de Silvia Toffanin, o cantor e músico Paolo Belli fez sua estreia em Verissimo, oferecendo mais do que anedotas de bastidores: apresentou uma narrativa onde a vida pública e a intimidade se entrelaçam como num delicado passo de dança.
Depois de duas décadas ao lado de Milly Carlucci como co-apresentador de Ballando con le stelle, Belli fez uma mudança de percurso na edição de 2025 do programa. Pela primeira vez, deixou de desempenhar o papel de co-condutor para subir à pista como concorrente. Ao lado da parceira de dança Anastasia Kuzmina, pôs-se à prova no ritmo e na performance: a jornada do casal artístico terminou na décima emissão, quando foram eliminados após o tradicional ballottaggio final.
Mas o que transformou sua passagem por Ballando em algo memorável não foi apenas a coreografia: foi o momento em que Belli dedicou um valsa à sua esposa, Deanna. Emissora e público testemunharam um gesto carregado de história — a dança funcionou como um espelho do tempo vivido a dois, um refrão afetivo que dialoga com a memória e a resiliência do casal.
Durante a entrevista em Verissimo, Belli falou sem rodeios sobre os desafios que atravessaram ao longo dos 42 anos de casamento. Evitou detalhar o quadro clínico, preservando a privacidade da companheira, mas não se conteve ao descrever a intensidade do sofrimento e a gratidão pela superação: “Mi innamoro di lei ogni giorno, del suo sorriso e del tono della sua voce. Per me esiste solo lei, non mi interessa nient’altro”, disse, repetindo em italiano uma devoção que transcende o palco.
Ao recordar a “sfida più grossa” ocorrida há cerca de um ano, Belli reconheceu o papel dos profissionais de saúde, mas também evocou a força silenciosa do afeto: afirmou que permaneceu ao lado de Deanna durante toda a provação e que acredita que a energia do casal contribuiu para a recuperação. A emoção rompeu a contenção habitual: lágrimas que humanizam uma figura pública conhecida por seu carisma.
Como analista cultural, vejo nessa entrevista um roteiro oculto sobre como a televisão contemporânea atua como arena de empatia. O episódio de Belli em Verissimo não é apenas a crônica de um artista que mudou de função em um programa; é um exemplo de como o entretenimento pode recodificar a intimidade em imagens públicas sem cair em voyeurismo. Há uma ética do compartilhar — uma semiótica do viral que escolhe resguardar detalhes e, ainda assim, converter vulnerabilidade em força coletiva.
Ao final, resta a percepção de que a dança, o programa e a confissão compõem um pequeno tratado sobre memória afetiva: o valzer dedicado a Deanna virou um gesto simbólico, um reframe da realidade em que o público é convidado a testemunhar não só o talento, mas a história que molda esse talento. Em tempos de narrativas rápidas, essa pausa sensível nos lembra que há sempre um roteiro mais profundo por trás do espetáculo.






















