Por Chiara Lombardi — No 76º Festival di Sanremo, a cidade de Nápoles não aparece apenas como um cenário: torna-se protagonista. Em uma noite em que emoções e viralidades se entrelaçam, as canções e performances com sotaque napolitano subiram ao pódio das tendências, transformando a presença musical da cidade em uma verdadeira obsessão coletiva.
Começando pelo fenômeno que empresta nome ao sentimento da plateia, “Ossessione Napoli” — assinado por Samurai Jay — escalou rapidamente a Top 50 Italia do Spotify, acumulando mais de 800 mil streams em apenas 48 horas. O impacto se estende também ao formato audiovisual: o videoclipe sensual, com a participação da showgirl argentina Belén Rodriguez, já ultrapassou as 700 mil visualizações. É um exemplo claro de como o som, a imagem e a celebridade funcionam como espelhos culturais que refratam a cidade para além do palco do Ariston.
Não é um caso isolado. A cena napolitana aparece em diferentes tons: Luchè com “Labirinto” ocupa a sexta posição na lista de singles, enquanto o jovem duo pop Lda e Aka 7even, com “Poesie clandestine”, já soma mais de 500 mil streams e cerca de 400 mil visualizações no YouTube. Quatro músicas distintas — um verdadeiro poker artístico — ampliam, em uníssono, a ressonância cultural da cidade, cada qual com sua estética e público, compondo um mosaico sonoro que ecoa no festival e nas plataformas digitais.
As redes sociais, por sua vez, repetem e amplificam esse roteiro. No TikTok, a espontaneidade virou coreografia: o ballet improvisado de Sal Da Vinci cantando “Per sempre sì” no largo do histórico hotel Miramare The Palace ultrapassou os 100 mil likes. No Instagram, fãs reproduzem o gesto íntimo do cantor — mostrar a aliança — transformando a memória pessoal em performance coletiva. Um vídeo ainda mais tocante, protagonizado por um grupo de senhoras do centro de convivência de Ostuni (Associazione Filo d’Arianna – Le nonne di Ostuni), já tem mais de 400 mil views, provando que o afeto e a nostalgia são linguagens universais.
Sanremo foi também palco de surpresas e emoções ao vivo: a entrada inesperada de Alessandro Siani como super-ospite, substituindo Pucci, deu outro tom à noite dedicada às cover e duetos. E quando Sal Da Vinci subiu ao palco, não foram apenas aplausos: salas de imprensa transformaram-se em pistas de dança, e a performance chegou a “paralisar” uma praça — gravitando entre celebração e êxtase, como num filme cujo roteiro oculto revela o desejo coletivo por momentos autênticos.
O que estamos testemunhando não é só a sequência de um sucesso musical. É o reframe de uma imagem de cidade: Nápoles como arquivo emocional, como catálogo de memórias e desejos, projetada em telas pequenas e grandes. Esses sucessos mostram como a cultura popular contemporânea age como semiótica do viral — peças soltas que, montadas, contam uma história maior sobre identidade, pertença e mídia.
Em termos práticos, as cifras falam por si, mas o aspecto mais interessante é o que elas revelam sobre o zeitgeist: uma comunidade sonora que encontra nas plataformas digitais e no palco de Sanremo um espelho onde se reconhece, cria narrativas e amplia sua influência. A festa é musical, mas o efeito é social — Nápoles não só canta, ela dita a melodia do momento.






















