Niccolò Ghisleni, nascido em 2001 em Dalmine, fez do campo de futebol o primeiro ato de uma narrativa que hoje reescreve em forma de canção. Conhecido artisticamente como Nyo, ele trocou a rotina de treinos pela busca de uma voz que traduza a sua parte mais sensível. O lançamento mais recente é o single Casa, editado pela Edizioni Urban Records, um episódio sonoro que confirma a virada de rota deste jovem que passou pelo vivaio da Atalanta.
“A um certo ponto percebi que não queria dedicar a minha vida só ao futebol, ser um atleta entre treinos e casa: dentro de mim há algo mais emotivo a expressar”, conta Nyo. A declaração ecoa como uma reescrita do roteiro esperado: não se trata de renegar a sala de troféus, mas de priorizar a paisagem interior — o verdadeiro campo onde florescem as canções.
O percurso esportivo de Niccolò Ghisleni é sólido: entrou com sete anos nas categorias de base da Atalanta, passou por empréstimos a Piacenza, Taranto e Acireale e, após o fim do vínculo, defendeu Virtus Bergamo e Casazza. Chegou a treinar com a equipe principal em níveis altíssimos, lado a lado com talentos como Dejan Kulusevski e Musa Barrow — dois nomes que hoje ocupam palcos europeus e globais.
Mas a narrativa teve episódios dolorosos. Dois graves problemas no ligamento cruzado — o segundo justamente quando parecia haver uma reabilitação e uma abertura de mercado, com olhares voltados ao Catania — forçaram uma reconfiguração de planos. “Quando você rompe os joelhos e não tem contrato, ninguém te estende a mão”, lembra. Foi nesse ponto que a música, presença antiga em sua biografia, virou rota e refúgio.
O nome artístico Nyo carrega um duplo sentido: remete ao personagem Neo, interpretado por Keanu Reeves em Matrix, e em japonês invoca ideias de inclusividade, do todo como nada. O ponto final após o nome funciona como um sinal de autoridade, um pequeno detalhe que afirma identidade num cenário onde singularidade é moeda rara.
Desde criança, a música fez parte de sua formação: aulas de bateria, composições na escola primária e média, e sessões de freestyle com amigos quando o rap ganhou centralidade cultural. Em outubro, lançou o single Serio; agora estreia Casa, peças que se movem por uma intimidade reflexiva — como se cada verso fosse um espelho do nosso tempo.
O universo esportivo não ficou totalmente fora da história. Ao deixar o futebol, Nyo cultivou laços com colegas de geração, entre eles Giorgio Cittadini, com quem mantém uma amizade antiga e afinidade musical. “Colaborei em seus trabalhos no estúdio quando deixei o futebol”, diz. A passagem pelo campo, as lesões e a reorientação artística compõem um roteiro que fala de resiliência e de escolher a própria narrativa.
Sem arrependimentos: “Rimpianti? Nessuno” — traduzindo a austeridade de quem transformou um revés físico em ponto de partida criativo. Do gramado aos estúdios, Nyo opera um reframe da realidade: o que poderia ter sido fim virou capítulo inicial de um projeto artístico que investiga a memória, a identidade e aquilo que nos torna humanos.
Num tempo em que a cultura pop funciona como um espelho e um mapa, a trajetória de Niccolò Ghisleni — Nyo é uma história sobre escolhas, perdas e descobertas. Seu novo single Casa é menos um adeus ao futebol e mais uma declaração de intenção: a prioridade agora é traduzir a vida em melodias e versos, localizar a casa emocional que vive em cada um de nós.






















