Por Chiara Lombardi — Em uma temporada que pensa o teatro como espelho do presente, o Teatro di Rifredi celebra quatro décadas desde sua reabertura com uma programação que dialoga com as grandes tensões do nosso tempo. A partir de fevereiro, a sala florentina assume oficialmente o novo nome: Nuovo Rifredi Scena Aperta, sob a direção artística de Stefano Massini, reafirmando seu papel de casa que produz, acolhe e experimenta.
A inauguração simbólica das celebrações está nas mãos de Angelo Savelli, fundador da companhia Pupi e Fresedde, com a estreia em primeira nacional de I coniugi Ubu, marcada para terça-feira, 3 de fevereiro, e em cartaz até domingo, 8 de fevereiro, em Florença. A peça — escrita e dirigida por Savelli — é uma paródia grotesca inspirada em Ubu re e em outros textos do francês Alfred Jarry.
Savelli, cujo percurso rendeu-lhe o Premio Ubu Speciale em 2019 pelo trabalho de tradução, montagem e promoção da nova dramaturgia internacional, explica que a sua nova produção é, antes de tudo, um tributo ao valor da criação artística cultivada pela casa: “O Nuovo Rifredi sempre esteve atento às obras internacionais e às companhias emergentes. Somos uma sala amada pelos artistas — uma casa onde se produz e se trabalha em sintonia com a criatividade e com as exigências do público”.
No âmago do espetáculo está o tema do poder — um fio condutor na temporada que também traz espetáculos como Donald, de Massini, sobre a ascensão de Trump, e o Riccardo III montado por Antonio Latella. “Enquanto outras leituras seguem a chave dramática, nós optamos pelo grotesco”, afirma Savelli: uma escolha que transforma o riso em lente crítica, revelando o roteiro oculto da ambição política.
I coniugi Ubu recupera a fábula de Jarry: um homem sedento de poder, incitado pela esposa, assassina o rei da Polônia para tomar o trono. Savelli destaca Jarry como um precursor das vanguardas e um profeta: “Já em 1896, quando a peça estreou em Paris, Jarry antecipava as ditaduras sangrentas do século XX. Com a figura de Ubu e sua sede de poder, ele prenunciou os tiranos que marcariam o século”.
O espetáculo não se encerra no século XX: sua conclusão se abre para o século XXI, cenário que viu a explosão de nacionalismos e soberanismos mesmo dentro de democracias consolidadas. Nesta leitura, o grotesco não é apenas humor; é um reframe da realidade — uma semiótica do viral do poder que ecoa nas nossas memórias coletivas.
Ao renomear o espaço como Nuovo Rifredi Scena Aperta, Stefano Massini e a direção artística afirmam uma visão: o teatro como plataforma compartilhada, um espaço onde a produção e a recepção se enredam, e onde a história se devolve ao público sob a forma de perguntas, mais que respostas. É nesse diálogo entre palco e plateia que o teatro permanece um espelho do nosso tempo.
Estreia: 3 de fevereiro de 2026. Temporada de reapresentações até 8 de fevereiro. Produção: Teatro della Toscana — Nuovo Rifredi Scena Aperta.



















