Por Chiara Lombardi — Em um olhar que mistura memória coletiva e semiótica urbana, Nevicava a Roma, documentário assinado por Enrico Salvatori e Francesca Scancarello (Rai Storia), recupera episódios em que a neve transformou a paisagem e o cotidiano da cidade eterna. Mais do que retratar fenômenos meteorológicos, o filme funciona como um espelho do nosso tempo: cada nevicata é um ponto de inflexão que revela fragilidades urbanas, culturais e históricas.
O documentário percorre cronologicamente as grandes nevadas que, embora raras em Roma, foram capazes de colocar a capital em crise por não estar preparada para o manto branco. O roteiro parte da chamada “nevicata do século” de fevereiro de 1929 e segue pelos episódios de 1939-40, 1965, 1969, 1971, 1985, 1986, chegando às mais recentes de 2012 e 2018. Contudo, é a nevicata de 1956 que ocupa o imaginário: no ápice de 18 de fevereiro caíram 8 cm de neve após duas semanas de precipitações, cena que inspirou livros, filmes e a canção inesquecível “La nevicata del ’56”, de Carla Vistarini, imortalizada por Mia Martini em Sanremo 1990, merecedora do Prêmio da Crítica.
Contexto e tempo de reconstrução
O filme posiciona a nevicata de 1956 dentro de um cenário histórico mais amplo: era o ano em que Cortina recebia as Olimpíadas de Inverno (um marco para a Itália no pós-guerra), dava-se a primeira pedra da Autostrada del Sole e a televisão popularizava “Lascia o raddoppia?” — enquanto a Fiat 600 surgia como ícone do emergente boom econômico. O historiador Agostino Giovagnoli comenta que o clima de reconstrução já vinha desde 1949, com o Plano INA-Casa de Amintore Fanfani, concebido para garantir moradia popular.
Personagens institucionais e culturais pontuam o documentário: o engenheiro Filiberto Guala, que em 1954 se tornaria o primeiro diretor da Rai, e vozes acadêmicas e científicas que dão sentido às imagens de arquivo. Entre elas, aparecem os responsáveis pela Biblioteca de Meteorologia do Collegio Romano, a historiadora da arquitetura Maria Clara Ghia e o coronel da Aeronáutica Guido Guidi — rosto conhecido da televisão que simboliza a continuidade da tradição de divulgação meteorológica iniciada por Bernacca.
O filme como arquivo e reflexão
Ao alternar fotografias de época, depoimentos e análise histórica, Nevicava a Roma não apenas documenta eventos climáticos; ele convida a um reframe da realidade: reconhecer na neve um dispositivo de memória que revela tensões sociais, infraestruturais e simbólicas. A cidade, tão acostumada à luz mediterrânea, torna-se por momentos outra cena — um set cinematográfico que expõe o roteiro oculto da sociedade.
O documentário estreia na telinha e nas plataformas: a partir de sexta-feira, 6 de março, em prime time no Nove e em streaming no discovery+. Para quem observa cultura e comportamento, a obra é uma oportunidade para ler Roma por meio das suas intempéries e perceber como pequenos fenômenos meteorológicos amplificam narrativas maiores — memória, reconstrução e identidade.
Data da publicação original do documento analisado: 17 de fevereiro de 2026.






















