Por Chiara Lombardi — Em cena no grande espelho cultural do país, nayt traz para o Sanremo um recorte íntimo do rap que se aproxima do cantautorato. William Mezzanotte — nome de batismo do artista — tem 31 anos e carrega no DNA a tradição do hip hop, com rimas e bases, mas percorre palcos de arenas e alcançou discos de platina sem recorrer ao ritual estereotipado das palavras de ordem do gênero, como “money, bitch e gang”. O resultado é uma obra que soa como um roteiro de interioridade.
No palco do Ariston, ele apresenta “Prima che”, primeiro avanço do álbum “io Individuo”, com lançamento marcado para 20 de março. A canção parte de um gesto conceitual: remover as sobreestruturas para regressar ao que existe antes — antes da primeira relação, antes das identidades atribuídas. É a mãe, diz ele, o elemento primário que todos compartilhamos; e a partir daí se faz a pergunta política e íntima: quem somos antes disso?
Articulando referências que misturam memória pessoal e eco cultural, nayt cita o monólogo de Giorgio Gaber, “L’equazione”, como faísca criativa: pequenas mudanças que podem virar a vida. A canção é, nas palavras do artista, uma investigação sobre reconhecimento e identidade — tanto pessoal quanto coletiva — e um chamado a olhar para além da polarização, recuperar empatia e ver a si mesmo sem as lentes do julgamento instantâneo.
Não escapa à sua crítica o tempo das redes sociais. Um trecho do texto aponta os tiques de uma sociedade regida por posts e likes: a necessidade de feedback numérico imediato que confere autoridade a vozes que muitas vezes não a merecem. “Tento me desligar da lógica do retorno numérico, embora às vezes eu mesmo seja vítima”, admite nayt. A lição que ele extrai é também prática: se moldarmos as relações ao que agrada ao outro, perdemos a ligação com o nosso verdadeiro eu.
Ao falar sobre a experiência de subir ao palco de um festival tão iluminado quanto o Sanremo, revela uma serenidade inesperada. Exibir-se diante de um público que ainda não o conhece é, para ele, menos totalizante do que encarar a própria base de fãs mais íntima. Há, nesse contraste, um deslocamento do ego — o que interessa é a peça, o percurso de pesquisa humana, não a consagração imediata.
Não foge ao debate público: sobre o boicote ao Eurovision-Israel proposto por Levante, nayt pondera a necessidade de entender o que se comunica ao ir ou ao não ir, e também o ponto de vista do artista israelense. “Não tenho uma resposta definitiva”, confessa, inclinando-se mais ao “não” do que ao “sim”. A observação é típica de um artista que busca não apenas posicionar-se, mas compreender os efeitos simbólicos de cada gesto.
O que nayt traz ao festival é, portanto, um projeto artístico que procura traduzir inquietações íntimas em linguagem pop-hip hop, oferecendo ao público um espelho do nosso tempo: um roteiro oculto da sociedade onde identidade, memória e tecnologia colidem. É pop, mas não é superficial; é rap, mas não cabe em rótulos. É, acima de tudo, uma tentativa de ver com nitidez quem somos antes das camadas que nos definem.






















