Por Chiara Lombardi — Emblema de uma geração que fez do rap o espelho do nosso tempo, Nayt, nome artístico de William Mezzanotte, confirma seu lugar no cenário nacional com uma presença que privilegia a introspecção sobre o ruído. Nascido em Isernia em 1994 e criado em Roma, ele transformou a cidade — suas ruas, contradições e memórias — no estúdio íntimo onde lapida a própria voz.
Ao contrário do espetáculo que muitas vezes define o gênero, a proposta de Nayt é outra: um rap que não busca pose, mas verdade; que interpela e desmonta identidades em vez de construí-las sobre fachadas. É essa postura que traz ao Festival de Sanremo 2026 a canção “Prima che”, escrita por ele e produzida por Zef. O tema nasce da necessidade de perguntar o que resta das relações humanas quando se removem códigos sociais, hábitos e máscaras — um reencontro com o outro e consigo mesmo.
“Venho de uma escola di rap muito técnica e ho cercato di portare questa tecnica al servizio della poetica e del cantautorato”, diz ele, traçando uma ponte entre a tradição técnica do rap e a poesia do cancioneiro. Para Nayt, a canção de amor que apresenta ao grande público não banaliza o sentimento: ela é uma declaração com peso social, um convite à escuta atenta.
O percurso artístico de Nayt é uma narrativa em camadas. Do debut independente à trilogia que o definiu — Raptus (2015), Raptus 2 (2017) e Raptus 3 (2019) —, cada projeto mapeou um processo de crescimento, conflito e autoconhecimento. Em 2020, Mood consolidou uma escrita mais autoral; vieram depois Doom (2022) e Habitat (2023), onde a introspecção se mistura a uma pesquisa sonora mais precisa. Lettera Q (2024) ampliou o foco temático, colocando tempo, identidade e responsabilidade no centro do discurso.
Em 2016, inicia um percurso terapêutico que, segundo ele, foi decisivo para sua evolução pessoal e artística — processo que concluiu em 2025, no mesmo ano em que saiu o disco Bacio, apontado por Nayt como um marco de compreensão e mudança. A memória afetiva também pontua sua relação com o festival: seu lembrança de Sanremo é o clássico “Cambiare” de Alex Baroni, uma canção que dialoga com temas de transformação e perda.
No palco do Ariston, durante a noite dedicada às cover, Nayt sobe acompanhado de Joan Thiele para interpretar “La canzone dell’amore perduto” de Fabrizio De André, um gesto que liga o rap contemporâneo ao cânone da canção italiana, evidenciando o roteiro oculto que conecta gerações e discursos.
Além de “Prima che”, o artista prepara o lançamento de seu décimo álbum, io Individuo, marcado para 20 de março, projeto que explora as variadas superfícies da identidade. O single “Un uomo”, lançado em outubro passado, já antecipou a pergunta central do trabalho: “Como se faz para ser um homem?”.
O debut de Nayt em Sanremo 2026 não é apenas uma estreia de palco: é um momento em que a cena do rap italiano mostra, em tom mais sério e reflexivo, que pode dialogar com tradições, assumir responsabilidades sociais e oferecer ao público canções que pesam.
Como uma fotografia em movimento, a trajetória de Nayt funciona como um reframe da realidade — uma voz lúcida que nos pede: e se tirássemos as camadas do espetáculo, o que restaria de nós?






















