Por Chiara Lombardi — Em um diálogo que é quase um espelho do nosso tempo, Gabriele Muccino e Carolina Crescentini revelam no novo vodcast da Adnkronos o coração do seu filme Le cose non dette, que chega às salas em 29 de janeiro com a distribuição da 01 Distribution. Longe da fofoca, a conversa é uma investigação delicada sobre como o não dito molda destinos, relações e memórias — o roteiro oculto que nos acompanha sem que muitas vezes saibamos.
Muccino parte de uma constatação quase antropológica: o não dito funciona como um maciço emocional que carregamos. Traumas não nomeados, vergonhas guardadas, pudores e o medo do julgamento criam muros invisíveis que, com o tempo, definem quem nos tornamos. É essa semiótica silenciosa que o diretor devolve ao cinema: personagens imperfeitos, casais em atrito e verdades que doem.
No diálogo com Crescentini, o ponto se amplia para dentro das relações. Muitas vezes, diz Muccino, nem sequer nos conhecemos por completo — e, por isso, calamos até para nós mesmos. É nesse silêncio autoimposto que o viagem da dupla costuma terminar. Crescentini, por seu turno, observa a dinâmica da ciúme como geradora de uma prisão emocional: quem é ciumento, frequentemente cria as condições para que o outro não possa ser franco. A atriz recorda o impulso de sua personagem de explodir para não se apagar: Anna é direta com os outros, mas muda quando se trata de olhar a própria ferida.
O diretor não se furta à autocrítica. Em tom quase de confessionário, Muccino admite ter sido «istericamente ciumento» no passado, comportamento que silenciou companheiras e atrofiou diálogos. A autobiografia breve entra como um reframe: o silêncio imposto por medo produz mais silêncio, e o ciclo só se interrompe quando alguém nomeia o que dói.
Adaptado do romance Siracusa de Delia Ephron — autora também da coautoria do roteiro ao lado de Muccino —, Le cose non dette acompanha duas casais em viagem a Tânger que viram um laboratório emocional. Carlo (Stefano Accorsi) e Elisa (Miriam Leone) representam um casal estabelecido, com sucesso e rotinas que deslocam o amor para uma coreografia segura; ele, professor e escritor em crise criativa; ela, jornalista de projeção internacional. Juntos saem do conforto de Roma em busca de estímulos, acompanhados pelos amigos Anna (Carolina Crescentini) e Paolo (Claudio Santamaria) e pela filha adolescente, Vittoria (Margherita Pantaleo).
O cenário exótico de Tânger funciona como espelho e amplificador: o calor, as ruas e as margens do desconhecido fazem saltar fissuras. Entre olhares que confundem fronteiras e segredos que pesam, o grupo confronta o que esteve sempre presente, mas nunca pronunciado. A chegada de Blu (Beatrice Savignani), jovem aluna de filosofia de Carlo, acende ainda mais as tensões, cortando o verniz das certezas e oferecendo perguntas que não têm respostas fáceis.
Carolina Crescentini descreve Anna como «a personagem mais franca do filme»: alguém que diz tudo aos outros e nada a si própria. Crescida entre abandonos nunca elaborados, Anna vive em alerta — uma condição que a transforma em figura de choque emocional. É nesse espaço que o longa transforma a vida cotidiana em matéria dramática, mostrando como pequenas omissões reverberam como sismos íntimos.
Ao reunir atores como Stefano Accorsi, Miriam Leone, Claudio Santamaria, Margherita Pantaleo e Beatrice Savignani, Muccino constrói não apenas cenas de conflito, mas um painel sobre a vulnerabilidade compartilhada. Le cose non dette é, portanto, menos um estudo de culpa do que um convite ao diálogo: um lembrete de que a verdade não dita é, frequentemente, o roteiro oculto que determina nossas escolhas.
Num tom que combina análise cultural e sensibilidade narrativa, o filme reafirma o cinema mucciniano como um palco onde o íntimo se encontra com o coletivo — o eco cultural de relações que refletimos como num espelho. Para além da trama, sobressai a pergunta essencial: qual o preço de calar o que arde? E será que, finalmente, temos coragem de nomear o que nos molda?






















