Rob Hirst, o icônico baterista e cofundador da banda australiana Midnight Oil, morreu em Sydney aos 70 anos, após quase três anos de luta contra um câncer de pâncreas. A confirmação veio em um comunicado oficial da banda, que descreveu sua partida como a perda de um irmão e de um “barlume de pequena luz na natureza selvagem”.
Nascido em 1955 em Camden, na Grande Sydney, Rob Hirst foi muito mais do que o pulso rítmico do grupo: foi uma força criativa constante. Assinou, muitas vezes ao lado de Jim Moginie e Peter Garrett, canções que entraram no cânone do rock dos anos 1980 e 1990, como Beds Are Burning, Blue Sky Mine e The Dead Heart. Essas canções não eram apenas hits; eram afirmações políticas e poéticas, refrões que transformavam palco em tribuna e pista em arena de debate.
Nos palcos, Hirst era a personificação de uma energia quase inesgotável. Sua performance — corpo e batida trabalhando como um metrônomo de convicções — ajudou a consolidar os Midnight Oil como uma das mais electrizantes live bands da história recente. Mas reduzir sua importância ao espetáculo seria perder o centro: sua música era também veículo de ativismo. Ao longo de décadas, a banda se fez voz das lutas por direitos dos povos aborígines e pela proteção ambiental, e Hirst foi um motor incansável nesse diálogo entre arte e responsabilidade social.
O primeiro‑ministro australiano, Anthony Albanese, o definiu como “um gênio e uma lenda”, reconhecendo o papel de Hirst no imaginário cultural do país. O cantor Jimmy Barnes, amigo e colega de estrada, afirmou: “Era o motor que empurrava uma das maiores bandas ao vivo de todos os tempos. Rob era único e insubstituível.” Essas reações públicas ajudam a medir o eco cultural deixado por sua trajetória: não apenas músicas, mas pontos de inflexão na consciência coletiva.
Mesmo após o diagnóstico, Hirst permaneceu ativo. Participou da turnê de despedida Resist, em 2022, e continuou compondo nos anos seguintes, até a progressão da doença. Fica o legado artístico e humano: deixa a esposa Lesley e as três filhas — Gabriella, Lex e Jay. A família pediu que sejam feitas doações à PanKind, organização de pesquisa sobre câncer de pâncreas, ou à Support Act, que apoia trabalhadores do setor musical.
Como analista cultural, penso na partida de Rob Hirst como um fechamento simbólico e, ao mesmo tempo, um chamado à memória. Sua batida nunca foi um simples compasso: foi um espelho do nosso tempo, um roteiro oculto que colocou ética e urgência no centro do espetáculo. Em noites de shows, quando o bumbo ressoava, o público não celebrava apenas a técnica — reconhecia uma posição moral, uma escolha estética que transformava guitarra e voz em proclamação.
O adeus a Hirst reverbera nos palcos, nos discos e nas causas que ajudou a iluminar. É hora de ouvir essas canções novamente não como relicários, mas como mapas: orientações sonoras para compreender de onde viemos e o que ainda precisa ser protegido. No grande palco da história cultural, Rob Hirst foi — e continuará sendo — um pulso que insiste em nos lembrar do porquê.


















