É com um ressentimento quase cinematográfico que recebo a notícia da morte de Maria Rita Parsi, psicóloga e psicoterapeuta de renome internacional, que nos deixou aos 78 anos. A partida acontece como um corte abrupto no roteiro coletivo, um silêncio que pesa especialmente neste momento histórico em que o debate sobre proteção infantil se mostra mais urgente e doloroso.
Quem testemunhou, de perto, as últimas palavras públicas da professora foi Vladimir Luxuria, que ao comentar a tragédia no programa La volta buona recordou ter visto Parsi apenas três dias antes. Em estúdio, comovida, Luxuria contou o breve diálogo que agora soa como prenúncio: Parsi havia mencionado uma dor na perna e, diante do conselho de procurar atendimento, respondeu que o trabalho a chamava e que cuidaria disso depois. Hoje, a notícia de uma morte súbita transforma esse instante em um espelho cruel do nosso tempo.
As palavras de Luxuria não se limitam ao lamento pessoal: há nelas uma leitura mais ampla. Ela destacou que, num período em que casos de violência contra crianças chocam a opinião pública, perdemos a voz de uma mulher que defendeu os direitos das crianças com erudição, sensibilidade e compromisso ético. Parsi não era apenas uma especialista; era um ponto de referência — um farol em um cenário onde muitas vezes falta clareza sobre medidas de proteção e prevenção.
A apresentadora Caterina Balivo acrescentou, com tom de gratidão, que Maria Rita sempre participou de seus programas sem cobrar, porque via sua atuação como uma missão. “Ela era única, sempre presente com a palavra adequada. Cara prof, nós te queremos bem, obrigado por tudo que fez e por tantas crianças que ajudou a salvar”, disse Balivo, sintetizando o afeto do público e de colegas que a consideravam um pilar do debate clínico e social.
Como analista cultural, penso que a ausência de Parsi representa algo além da perda individual: é um reframe na narrativa pública sobre infância e vulnerabilidade. Seu trabalho funcionava como uma semiótica aplicada — transformando conhecimento técnico em discurso acessível e, ao mesmo tempo, em pressão pública por políticas mais justas. Era a tradução entre o consultório e o palco público, entre o silêncio das famílias e o clamor por proteção.
Em tempos de notícias rápidas e de manchetes que muitas vezes preferem o choque à explicação, a figura de Maria Rita Parsi nos lembra da importância de construir uma voz autoral e responsável. Sua trajetória foi um exercício de resistência cultural — ensinar, intervir, acolher — que reverbera hoje como um eco que precisa ser ouvido e prolongado por quem segue trabalhando em defesa das crianças.
Que este luto se transforme em renovação de compromisso: a falta que sentimos é também chamada à ação. Afinal, quando uma voz experiente se cala, o roteiro oculto da sociedade exige que outras vozes se levantem para continuar protegendo os mais vulneráveis. Obrigada, prof. Parsi — por tudo que ensinou, por todo o corpo de trabalho que deixa como mapa para os que virão.






















