Por Chiara Lombardi — Morreu aos 96 anos o grande nome da arquitetura contemporânea, Frank Gehry, em sua casa em Santa Monica, Califórnia. A confirmação veio de Meaghan Lloyd, chefe de sua equipe, que disse que Gehry faleceu após uma breve doença respiratória. A notícia marca o fim de uma carreira que redesenhou a paisagem urbana e a nossa maneira de ver os edifícios como esculturas vivas.
Conhecido por suas superfícies metálicas onduladas e composições audaciosas, Gehry foi descrito pelo New York Times como “um dos talentos mais formidáveis e originais na história da arquitetura americana”. Sua assinatura visual — placas metálicas curvadas, volumes aparentemente desconstruídos e um jogo contínuo entre caos e harmonia — tornou-se sinônimo de uma arquitetura que é, simultaneamente, técnica e performática.
Frank Owen Goldberg nasceu em Toronto em 28 de fevereiro de 1929, em uma família de origem judaica que se mudou para os Estados Unidos no final dos anos 1940. Em Los Angeles, formou-se em arquitetura pela University of Southern California em 1954. Foi nesse período que ele adotou o nome Gehry, uma mudança motivada pela necessidade de se proteger contra o antissemitismo vigente. Após um período no exército americano e estudos em urbanismo em Harvard, Gehry iniciou sua trajetória profissional ao trabalhar no escritório de Victor Gruen, pioneiro dos centros comerciais, e depois em Paris com André Remondet.
No retorno à Califórnia, fundou seu próprio estúdio no início dos anos 1960. A obra que mudaria os rumos de sua carreira aconteceu entre 1977 e 1978: a intervenção radical na modesta casa de Santa Monica, hoje conhecida como Gehry House. Envolvida por uma pele de materiais brutos e fragmentados, a casa foi um manifesto — um reframe residencial que questionou a ortodoxia modernista e anunciou o surgimento de um arquiteto disposto a compor espaços como se fossem cenários em constante mutação.
Ao longo das décadas seguintes, Gehry consolidou uma arquitetura escultural e dinâmica. Entre suas obras estão o Cabrillo Marine Museum em San Pedro (1979), a Loyola Law School (1981), o California Aerospace Museum (1982) e o Museum of Art de Santa Monica (1988). Nos anos 1990, suas formas arrojadas ganharam escala internacional: a sede da Vitra na Suíça (1994), o edifício administrativo do Team Disney em Anaheim (1995) e a emblemática Dancing House em Praga (1996), onde torres se entrelaçam como em uma coreografia urbana.
O ápice de sua visibilidade foi alcançado com o Museu Guggenheim de Bilbao, inaugurado em 1997. Revestido por curvas de titânio e volumes imprevisíveis, o edifício não foi apenas um marco estético: foi o catalisador do chamado “Bilbao effect“, transformando uma cidade industrial em declínio num pólo cultural e turístico de alcance global. Como um roteiro inesperado, o Guggenheim de Bilbao reescreveu o papel do monumento cultural na regeneração urbana — um espelho do nosso tempo onde arquitetura, economia e mídia se encontram.
Gehry também foi um pioneiro no uso de técnicas digitais e de modelação por computador, antecipando o que hoje se denomina design paramétrico. Seu trabalho aliou ousadia plástica e precisão técnica, rompendo a dicotomia entre arte e engenharia.
Ao longo de mais de seis décadas, a obra de Frank Gehry provocou debates, divisões e admiração: alguns o chamaram de revolucionário, outros de provocador. Mas é inegável que suas criações se tornaram ícones da paisagem contemporânea — peças que atraem olhares, turistas e uma reflexão contínua sobre o papel da arquitetura na produção de memória coletiva.
Hoje, ao lembrarmos de Gehry, não vemos apenas um arquiteto que projetou edifícios; vemos um autor que escreveu, através de metais, vidro e espaço, uma filmografia arquitetônica capaz de virar a lente da cidade para novas narrativas. O legado permanece: estruturas que desafiam expectativas, promovem encontros e transformam cenários. Em sua obra, a arquitetura se revela como uma espécie de câmera, refletindo e reframando a cultura onde está inserida.
Deixa-nos uma herança que continuará a ser estudada, amada e contestada — como todo grande roteiro cultural. Frank Gehry tinha 96 anos.

















