Por Chiara Lombardi — A televisão perde hoje uma voz que atravessou gerações: Demond Wilson, o actor lembrado por interpretar Lamont Sanford na icônica sitcom dos anos 70 Sanford and Son, morreu aos 79 anos. O falecimento ocorreu nesta sexta-feira na sua casa na Califórnia, devido a complicações relacionadas a um tumor, segundo informou o filho, Demond Wilson Jr.
“Eu o amava. Foi um grande homem”, declarou o filho em comunicado, numa frase que resume o equilíbrio entre a dimensão pública e o íntimo da vida de Wilson. Mais do que um intérprete de um personagem cômico, ele foi — como diríamos na metáfora do cinema — uma lente sobre um período específico da cultura televisiva americana, um pequeno espelho do nosso tempo que ajudou a refletir questões de classe, raça e família com ironia e humanidade.
Nascido na Geórgia em 1946 e criado em Nova York, Demond Wilson teve uma trajetória marcada por episódios de resistência e reinvenção. Serviu nas forças armadas durante a Guerra do Vietnã, onde foi ferido — um capítulo que modelou a sua visão de mundo e a sua carreira. Paralelamente à atuação, dedicou-se à escrita e à reflexão, construindo uma trajetória que oscilou entre o entretenimento popular e interesses mais pessoais e espirituais.
O sucesso massivo veio com Sanford and Son, série que o lançou ao imaginário coletivo entre as décadas de 1970 e 1980. No papel de Lamont Sanford, ele encarnou o filho paciente frente ao pai explosivo, formando uma dupla cuja química cômica espelha o roteiro oculto da sociedade daquela época — tensões domésticas que revelavam transformações sociais maiores.
Depois de décadas longe dos holofotes principais, Wilson voltou a atuar em 2023, participando do filme Eleanor’s Bench, sua última aparição na tela. A retomada foi recebida como um sinal de persistência criativa: artistas veteranos que reaparecem reescrevem seu legado e nos lembram da continuidade entre memória e contemporaneidade.
A notícia da morte convoca um exercício de recolhimento e reavaliação sobre o lugar que séries aparentemente leves ocupam na narrativa cultural. Sanford and Son não foi apenas um produto do seu tempo; foi um pequeno palco onde se representaram conflitos maiores — identidades, expectativas e o riso como ferramenta de sobrevivência. O desaparecimento de Demond Wilson nos convida a olhar para trás com curiosidade sofisticada, a entender por que certas imagens continuam a ressoar décadas depois.
Wilson deixa familiares, colegas e uma plateia que o reconheceu tanto pela graça como pela humanidade. Em tempos de fast culture, sua carreira é um lembrete de que a televisão pode ser, ao mesmo tempo, entretenimento e documento social: um reframe da realidade que nos permite ver, refletir e lembrar.
Fontes: comunicado da família; registros públicos sobre a carreira de Demond Wilson; ficha do filme Eleanor’s Bench (2023).





















