Dois dias antes de completar mais um aniversário, faleceu Carlo Cecchi, figura emblemática do teatro italiano. Nascido em Florença em 25 de janeiro de 1939, o ator, de 86 anos, foi encontrado morto em sua casa em Campagnano (Roma) pela empregada doméstica. Pessoas próximas classificaram o evento como “uma morte inesperada”.
Se o palco é um espelho do nosso tempo, Cecchi foi um dos vidros mais cortantes desse reflexo: um intérprete que articulava a inteligência do rigor com a impetuosidade do risco. Da estirpe rara que a crítica às vezes aproxima de Carmelo Bene, sua estética viveu do contraste — entre o gênio e a sregolatezza — e da disciplina cimentada nos estudos na Accademia.
Os mestres de Cecchi foram variados e cosmopolitas: do impulso coletivo do Living Theatre à tradição napolitana de Eduardo, passando pela amizade e pelos conselhos de Elsa Morante. Essa miscigenação deu origem a um ator que sabia dissolver a retórica e o artifício, entregando cada personagem à clareza expressiva.
Memoráveis foram suas leituras de Chekhov (a começar por Ivanov) e do absurdo contido em Beckett — destaque para Finale di partita, que retomou também na convivência criativa com Valerio Binasco. Cecchi circunavegou a solidão do século XX, imprimindo sua marca em Maiakovskij, Brecht e Büchner, e reencontrando nos grandes clássicos de Molière e Pirandello motivos para reinvenção.
Não era empresário no sentido convencional, nem buscava o protagonismo fáustico de um Gassmann; foi, antes, uma consciência corrosiva e iluminada para o que o teatro deveria ser: um veículo que transporta a poesia do passado para o presente. Do teatro napolitano de Scarpetta até a ironia cortante de Pinter, Cecchi parecia confortável nesse entrelaçar de comédia e tragédia — o chamado veneno inglês que tanto lhe era congenial.
Dirigiu e encenou Shakespeare — de A Tempestade a múltiplas leituras de Hamlet — sempre rompendo a lógica tradicional para oferecer um espetáculo em visão pessoal. Seu encontro com Thomas Bernhard deu alguns dos momentos mais intensos e excêntricos de sua carreira. Trabalhou com companhias e palcos do Sul ao Norte da Itália, entre eles o histórico Teatro Garibaldi de Palermo, onde valorizou o contexto físico e temporal do espetáculo: começar “à luz do dia”, seguir o curso horário, sentir o lugar como parte do texto — atitude que o aproximava do método de Ronconi.
Foi também um formador de gerações: muitos atores que estrearam ao seu lado saíram para se tornar nomes importantes do palco italiano. No cinema, sua trajetória incluiu colaborações relevantes: atuou com Mario Martone em Morte di un matematico napoletano — encarnando a angústia intelectual de Renato Caccioppoli — e contracenou com Tognazzi; trabalhou com Pupi Avati, Ferzan Özpetek e Bernardo Bertolucci. Nos anos de contestação, participou de filmes como Il gatto selvaggio, mas recusou convites de realizadores como Marco Bellocchio (Salto nel vuoto).
O teatro era sua morada, ao mesmo tempo natural e construída. Em cena, Cecchi misturava o trágico e o grotesco, o desesperado e o irônico, conseguindo uma mistura rara: popular e erudito, regional e cosmopolita. Seu Eduardo em Sik Sik l’artefice magico é lembrado como uma prova de linguagem e de respeito pela tradição, sem sucumbir às fórmulas.
Nos últimos anos, sua casa frequentemente se transformou em ponto de encontro para atores, diretores e jovens dramaturgos — um lugar onde se discutia o ofício como se fosse uma partitura viva. A sua morte encerra um capítulo do teatro italiano que privilegiava o risco interpretativo como força política e estética. Como observadora do zeitgeist, digo que perdemos não apenas um intérprete magistral, mas um espelho que refletia, sem concessões, o roteiro oculto da nossa sociedade.
Ainda que a notícia deixe um vazio, a herança de Carlo Cecchi persiste nas encenações que reinventou, nos artistas que inspirou e na ideia de que o palco pode — e deve — ser um laboratório de pensamento. É desse lugar que partem os futuros possíveis do teatro: menos espetáculo, mais interrogatório moral e estético.



















