Por Chiara Lombardi — Em uma mudança de última hora para a serata delle cover do Festival di Sanremo, ficou confirmado que Morgan não estará no palco com Chiello na sexta-feira, 27 de fevereiro. A equipe do próprio Chiello confirmou hoje que, durante a apresentação, o rapper será acompanhado ao piano por Saverio Cigarini, enquanto o arranjo foi “interamente” realizado por Saverio em parceria com Fausto Cigarini, que também assumirá a regência da orquestra.
Logo em seguida, veio o esclarecimento do próprio Morgan, que definiu seu papel como técnico e reservado aos bastidores: “A minha partecipazione come ospite di Chiello al prossimo Festival di Sanremo non sarà sul palco, ma dietro le quinte, il mio contributo sarà tecnico.” Ele justificou a escolha artística com precisão quase operística: ama profundamente o tema escolhido — “Mi sono innamorato di te”, de Luigi Tenco — e reconhece que se trata de um cânone intimista que pede “un’unica voce, un’unica anima, un solo cuore”.
As palavras de Morgan — mesmo que o seu papel técnico pareça ambíguo, já que o arranjo foi creditado integralmente aos Cigarini — serviram para apagar qualquer especulação imediata sobre atritos entre os dois artistas. Teria sido, para Morgan, o retorno ao palco desde o episódio notório de 2020 com Bugo, quando uma briga pública levou à interrupção da apresentação em plena competição.
Em contato com a agência Adnkronos, Morgan acrescentou outro motivo prático e simbólico: “Aver fatto le prove ha fatto emergere una cosa: la mia presenza era troppo ingombrante e l’effetto risultava controproducente per lui”. Ele observou que o repertório de Tenco tem um peso específico: “Quando lo si frequenta da molti anni, si sa quanto possa diventare dominante in scena. In una gara è giusto che l’interpretazione non venga sbilanciata. Alcuni repertori non sono neutri, portano con sé un peso specifico. Ho preferito non alterare quell’equilibrio.”
O episódio abre uma janela reveladora sobre a dinâmica dos duetos em festival: não se trata apenas de “quem canta com quem”, mas de como vozes e histórias se entrelaçam no palco, qual é o ponto de equilíbrio entre presença artística e respeito pela integridade do repertório. É quase como um enquadre cinematográfico em que um personagem muito luminoso pode apagar a cena inteira — e, por vezes, a escolha mais nobre é desligar a luz.
Nas redes, parte do público já havia demonstrado desconforto com a presença de Morgan no Festival, em razão de um processo por stalking que está suspenso, mas ainda não finalizado. Chiello chegou a defender a opção, dizendo que nutre grande admiração pelo artista.
Do ponto de vista performativo, portanto, a decisão parece equilibrar duas forças: a reverência ao cânone de Tenco — obra que funciona como um espelho do nosso tempo e cuja semântica musical exige cuidado — e a necessidade de manter o espaço de competição justo para Chiello, que chega ao palco com “Uomo che cade”, um tema que oscila entre rap clássico e sensibilidade cantautorale.
Na véspera da serata delle cover, o anúncio ressoa como um pequeno reframing: nem toda colaboração precisa ser visível para ser significativa; algumas contribuições são, propositalmente, voz de bastidores, como a mão do diretor que orienta a luz e o olhar do ator, deixando que ele viva o momento central do roteiro.






















