Por Chiara Lombardi — No Teatro degli Eroi, em Roma, chega uma peça que funciona como um espelho do nosso tempo: Mamma ha abbandonato il gruppo, escrita e protagonizada por Monica Tonelli e dirigida por Fabrizio Catarci, entra em cartaz de 5 a 8 de fevereiro para dissecar, com ironia e inteligência, a tirania das chat das mães.
O espetáculo parte de uma dúvida contemporânea que muitos já sentiram no próprio bolso do telefone: as mensagens de grupo são uma ferramenta preciosa para cuidar das crianças ou uma prisão asfixiante de notificações e cobranças invisíveis? Tonelli transforma esse dilema cotidiano em cena, mostrando como a necessidade de comunicar tudo — e rapidamente — cria uma lente de aumento sobre a vida dos filhos e uma expectativa coletiva sobre a performance materna.
A atriz-autora confessa, em conversa com a imprensa, o desconforto que essas plataformas provocam: o constante medo de ter perdido algo, a obrigação de opinar mesmo quando o pensamento pede silêncio. Nesse sentido, as chat funcionam como um mecanismo de vigilância simbólica: monitoram, com pequenas luzes de notificação, o cotidiano das famílias. “Se não existissem, seria muito melhor”, admite Tonelli, que afirma ter deixado todos os grupos de que fazia parte.
No palco, a personagem central é uma mãe multifacetada — trabalha, cuida da família, acompanha a escola — e, ainda assim, se encontra engolida pelo fluxo ininterrupto de mensagens. A virada da narrativa acontece quando surge uma oportunidade real de mudança: uma viagem para Nova York. O gesto de abandonar o grupo, aparentemente simples, desencadeia uma série de mal-entendidos e expectativas frustradas, que a peça explora com humor e acuidade social.
O tom é deliberadamente cômico, mas não ingênuo. A cena revela como os grupos digitais operam como organismos autocatalíticos: fechamos um e outros cem parecem nascer, numa lógica quase gremlinesca. O resultado é um verdadeiro caos comunicacional, onde informações se perdem, mensagens se sobrepõem e a intencionalidade humana se dilui entre notificações.
Mais do que risos, a peça de Tonelli oferece um reframe sobre o cuidado contemporâneo: o que significa educar e proteger na era da transparência compulsória? Como a pulsão por controle via chat altera as relações familiares e o imaginário da maternidade? Ao trazer a cena um episódio tão banal quanto abandonar um grupo, Mamma ha abbandonato il gruppo convida o público a refletir sobre o roteiro oculto da sociedade conectada — sobre culpa, liberdade e o custo da presença digital.
Ao final, a comédia revela-se também um manifesto discreto: um pedido por margens de silêncio num mundo ruidoso, uma reivindicação pelo direito a errar e a partir, sem que a timeline nos julgue. E, como toda boa narrativa que espelha a cultura, a peça de Tonelli nos lembra que o entretenimento pode ser uma lente para ler o presente — e, quem sabe, ensaiar outras formas de conviver com as redes que nos atravessam.
Mamma ha abbandonato il gruppo estará em cartaz no Teatro degli Eroi, Roma, de 5 a 8 de fevereiro. Informação e horários no site do teatro.






















