Monica Marangoni, jornalista e conduttrice, foi a convidada do novo episódio do vodcast da Adnkronos e falou sobre seu livro de estreia, Nudo tra sacro e profano (Cantagalli, 144 pp.). Em uma conversa que se move entre análise cultural e memória pessoal, Marangoni propõe um reframe daquilo que entendemos por nudez: não apenas como objeto de desejo ou mercadoria, mas também como possibilidade de encontro com o sagrado.
No cerne do livro está a tese de que a nudez tem um sentido histórico e simbólico que a modernidade tentou reduzir ao mercado e à exposição digital. A autora reconstrói um itinerário — quase cinematográfico — em que o corpo despido volta a funcionar como espelho do nosso tempo e, simultaneamente, como pista para experiências de transcendência. É esse roteiro oculto da sociedade que Marangoni busca colocar em cena.
Entre redes, lucro e redenção
Ao comentar a hiperexposição nas redes sociais e modelos econômicos como o OnlyFans, ela não ignora a dimensão comercial: “A sociedade contemporânea transforma o nudo em produto”, descreve. Ainda assim, Marangoni abre espaço para uma terceira via — que ela nomeia em italiano como nudità redenta — uma proposta de ressignificação que recupera elementos do sacro sem negar o corpo concreto e social.
Essa ideia de nudez redimida funciona, na sua leitura, como reação ao consumo voraz: é uma tentativa de devolver ao nudo uma espessura simbólica, situando-o em uma interseção entre o privado e o coletivo, entre memória e representação. É uma espécie de restauro cultural, onde a imagem do corpo nu retorna não só como espetáculo, mas como gesto de honestidade estética e espiritual.
O livro como câmera e espelho
Como analista cultural, Marangoni usa o livro para capturar cenas — imagens mentais que lembram quadros de cinema — e, ao mesmo tempo, para refletir sobre como essas imagens circulam e se transformam. Em sua narrativa, o leitor é convidado a observar a nudez com a mesma atenção crítica que se dedica a um filme premiado: qual é o enquadramento histórico? Que subtexto social ele revela? Qual é a performance do corpo e quem se beneficia dela?
O episódio no vodcast da Adnkronos acentua esse ponto: a conversa não é mero prefácio promocional, mas um diálogo com a tradição europeia e com os desafios contemporâneos da visibilidade digital. A autora traça paralelos entre iconografia religiosa, retratos artísticos e a economia de atenção das plataformas, propondo que a redescoberta do sentido do nu pode ser interpretada também como um gesto de resistência cultural.
Um convite à reflexão
Para quem acompanha cultura, comportamento e os movimentos de transformação social, a leitura de Nudo tra sacro e profano funciona como um convite sofisticado: olhar para a nudez além da superfície e perceber nela um ponto de encontro entre desejo, vulnerabilidade e, surpreendentemente, o divino. A proposta de nudità redenta é, em última instância, uma reapropriação simbólica — uma tentativa de limpar o espelho distorcido em que nos vimos nos últimos anos.
Como observadora do zeitgeist, acredito que obras assim remodelam nosso entendimento do corpo e da imagem pública: não para negar a mercantilização existente, mas para oferecer um roteiro alternativo — uma cine-lente que nos permite ler a cultura com maior densidade crítica. E, nessa leitura, a conversa de Marangoni no vodcast é uma pequena cena com grande potencial de ressonância.
Nota editorial: artigo adaptado a partir da participação de Monica Marangoni no vodcast da Adnkronos e das informações sobre seu livro de estreia publicado pela editora Cantagalli.






















