Por Chiara Lombardi — Em um momento em que a cena pop italiana parece às vezes repetir seus próprios clichês, Mobrici reconstrói um mapa afetivo e sonoro com Supernova, seu terceiro disco solo, marcado para sair em 30 de janeiro. O cantor e compositor milanês Matteo Mobrici, 36 anos, ex-frontman da banda Canova, confessa que foi a notícia da reunião dos Oasis que reacendeu seu impulso criativo e o empurrou de volta ao estúdio.
Do vazio pós-show ao novo começo: “Dois anos atrás, depois do último concerto, desci do palco perdido e sem objetivo”, conta Mobrici. Sentia-se entediado inclusive com o mercado musical — “tudo parecia repetido” — e a dúvida sobre o próprio caminho artístico o deixou sem rumo. A capa do álbum, um peixe dourado nadando no meio de uma galáxia, sintetiza essa sensação: um ser minúsculo e atordoad,o diante da vastidão de estímulos e planetas, imagem que funciona como espelho do nosso tempo.
Quando os irmãos Gallagher anunciaram a volta, Mobrici diz que “não dormiu por algumas noites” de tanta emoção. Essa notícia acendeu um farol num período em que falta pertencimento, e, paradoxalmente, devolveu sentido à sua urgência criativa. Meses após não tocar instrumentos, ele voltou a escrever e chegou a compor cerca de quarenta canções prontas e arranjadas. Porém, na véspera de enviá-las à gravadora, decidiu anular tudo e reescrever: percebeu que estava seguindo o mesmo roteiro de sempre e que precisava se abrir a novos horizontes.
Ao lado do produtor Federico Nardelli, Mobrici optou por um processo mais coletivo. Em vez de trabalhar sozinho, buscou diálogos — convidou artistas como Gazzelle, Calcutta, Dimartino e Fulminacci. Os dois últimos chegaram a entrar no disco também com a própria voz. O resultado são 10 faixas que nasceram de conversas sobre vidas entrelaçadas, compostas com uma fina camada de melancolia, mas longe de se reduzirem apenas a ela.
O álbum abre com Fede, um chamado a não se conformar, a nutrir-se do que é bom e a viver o presente. Em outras canções, Mobrici exibe sua alma romântica — “sempre existente, agora talvez mais sentimental do que carnal” — enquanto faixas como “Sono pazzo”, escrita com Fulminacci, oferecem momentos de leveza: “Escrevemos com duas guitarras e nos divertimos até chorar”, lembra ele. É esse recomeço — a disposição de não querer agradar a qualquer custo, mas comunicar algo verdadeiro — que redefine seu trabalho.
O disco transita entre pop, canção autoral e atitude rock’n’roll, e cristaliza temas hoje universais: dúvidas sobre o futuro, ansiedade social e uma sensação de inquietação compartilhada. Mobrici não tenta ser espetáculo; busca conexão. Em março, retorna aos palcos: dia 11 ele se apresenta no Alcatraz, em Milão, mostrando que sua reinvenção também tem lugar na rua, no palco, na plateia — o cenário concreto onde a semiótica do viral encontra a experiência humana.
Se a notícia dos Oasis foi a fagulha, Supernova é o efeito que ilumina um percurso renovado. É o roteiro oculto de um artista que escolheu arriscar, envolver outras vozes e transformar incerteza em diálogo — um álbum que funciona como pequena constelação pessoal e, talvez, como espelho do nosso tempo.






















