Por Chiara Lombardi para Espresso Italia — A disputa entre o concurso Miss Italia e a cantora Ditonellapiaga virou um espelho do nosso tempo: um confronto onde marca, identidade e representação se entrelaçam com a linguagem artística. O motivo? O álbum da artista, em competição no Sanremo e com lançamento anunciado para 10 de abril, chama-se exatamente Miss Italia e inclui uma faixa homônima ainda inedita.
Os organizadores do concurso afirmam que o uso da denominação é indevido e «gravemente prejudicial» aos direitos exclusivos ligados ao nome, à imagem e à reputação do evento e de suas participantes. Em nota, informaram que concederam mandato aos advogados Pieremilio Sammarco e Vincenzo Larocca para adotar «as mais apropriadas medidas judiciais» com o objetivo de impedir o uso contínuo do nome Miss Italia e pleitear indenização por eventuais danos.
A notícia pegou a própria Ditonellapiaga de surpresa — a cantora, cujo nome civil é Margherita Carducci, ficou entre os cinco mais votados na noite anterior com a música “Che fastidio!“. Em conferência de imprensa no Ariston, ela declarou que nem sabe se já ouviram a canção citada, que permanece inédita, e que, acima de tudo, se trata de uma questão legal: «Não conheço o legalês. Quem tem de cuidar disso, cuidará».
Segundo a artista, o conceito do disco é o relacionamento com os cânones de beleza: «O texto é inédito, ninguém insultou ninguém. Falo de mim e da relação com a perfeição. Esperava um pouco de ironia, esse é meu espírito». Reforçou ainda que nunca disse que as participantes do concurso fossem «desesperadas» — acrescentando que a canção fala de «esconder a angústia com a maquiagem».
Do outro lado, Patrizia Mirigliani — a patroa do Miss Italia — defendeu a titularidade do nome como marca familiar e comercial. Em declaração à LaPresse, Mirigliani afirmou que considerar o álbum e a faixa sem uma comunicação prévia como desrespeitoso: «Chamar um álbum de “Miss Italia” sem nos informar, sem falar comigo, titular da marca, e fazer uma canção que dá nome ao disco, conhecendo agora o conteúdo, levou-me a entregar o caso aos meus advogados. Fiz isso por respeito e para proteger as moças do concurso».
Esta tensão entre expressão artística e proteção de marca revela o roteiro oculto da sociedade contemporânea: como símbolos coletivos — sejam concursos, logotipos ou memórias culturais — tornam-se terrenos sensíveis quando reinterpretados por artistas que questionam padrões. A acusação central não é apenas jurídica, mas também semântica: o que significa usar um nome tão carregado de simbolismo num trabalho que pretende ironizar ou descontruir esses mesmos símbolos?
Enquanto advogados e assessorias de imprensa ajustam os próximos passos, a disputa promete prolongar-se para além do palco de Sanremo. Para a cantora, trata-se de preservar a liberdade criativa; para o concurso, de resguardar uma marca familiar e a dignidade das participantes. No centro, o público observa: o episódio é um pequeno reframe da relação entre arte, memória cultural e comércio — um caso que, como um bom roteiro, ainda tem cenas por vir.




















