Milvia Marigliano tem a fisionomia de quem vem do palco: presença contida, respiração musical e um repertório de pequenas virtudes dramáticas que falam mais alto do que olhos e figurinos. Em La Grazia, o novo filme de Paolo Sorrentino, ela empresta rosto e voz a Coco Valori — crítica de arte, confidente do presidente Mariano De Santis e figura que atravessa o protocolo com a naturalidade de quem enfim diz o que todos pensam.
“Não è una cena, è un’ipotesi” — a frase que abre o personagem no original soa como um mecanismo de desconstrução do cerimonial. Coco, com sua zazzera prateada, óculos marcantes e joias vistosas, funciona como aquela personagem que ocupa a cena não só para provocar riso, mas para revelar uma fenda no verniz do poder. Marigliano confessa ter encontrado a partitura do papel com facilidade graças à escrita singular de Sorrentino: uma cadência, um ritmo que evocam tanto a comédia quanto uma melancolia subjacente.
Nascida em Milão, classe de 1956, Milvia Marigliano é antes de tudo uma artista de teatro. Chegou ao cinema mais tarde, trazida por um ofício que exige corpo, memória e disciplina. Essa trajetória é visível em cada gesto da Coco: uma mulher que foi, talvez, cupido improvável na juventude — foi assim que se imagina sua relação com Mariano De Santis — e que guarda segredos de família como se guardasse fragmentos de um roteiro íntimo. A atriz interpreta essas camadas com a mestria de quem sabe construir o personagem também fora das cenas, alimentando sua interioridade com histórias não ditas.
Marigliano não chegou a Sorrentino por acaso. A diretora de elenco Annamaria Sambucco, conhecida por vasculhar palcos, a chamou para um teste em The Young Pope. A missão exigia viajar até a Cidade do Cabo e realizar cenas em inglês; foi uma prova pessoal: enfrentar o medo de voar que a acompanhava desde uma viagem jovem aos EUA. “Por amor a Sorrentino”, ela conta, venceu o pânico e gravou ao lado de Silvio Orlando. Mais tarde, voltaria a trabalhar com o diretor em Loro, partilhando frame com Toni Servillo.
O resultado em La Grazia é uma personagem que, além de comicidade, carrega a sombra de uma solidão exorcizada pela ironia. Coco é, nas palavras da própria intérprete, uma figura libertadora: “personagens assim têm o dever de elevar a atmosfera”. E essa elevação não é mera ornamentação; é um reframing do que aceitamos por normal em cenários de prestígio — do palácio presidencial ao noticiário cultural.
Como observadora cultural, vejo em Coco Valori um espelho do nosso tempo: uma personagem que ri do excesso de cuidado com a imagem, que satiriza o ritual do poder e que, ao mesmo tempo, testemunha a fragilidade humana por trás da coreografia institucional. Há aqui uma semiótica do viral — pequenas falas, gestos curtos — que Sorrentino transforma em imagem duradoura; Marigliano, por sua vez, oferece o tom exato para que essas falas se tornem memoráveis.
Não se trata apenas de uma revelação num filme de prestígio. É o encontro entre uma atriz de longa estrada teatral e um autor cinematográfico que precisa do verbo certo para traduzir as fissuras de uma época. Coco Valori é, por isso, mais do que uma figura de cena: é um roteiro oculto da sociedade, uma forma de fazer comédia que devolve ao público a capacidade de olhar — e rir — do próprio reflexo.
Em tempos em que o entretenimento é também documento cultural, a performance de Milvia Marigliano em La Grazia confirma algo óbvio e essencial: o teatro ainda é laboratório de verdade para o cinema, e atores forjados no palco carregam uma memória corporal que ilumina até mesmo as cenas mais meticulosamente encenadas.






















