Por Chiara Lombardi — Em meio ao entusiasmo e às luzes da abertura, a cobertura televisiva italiana teve seus tropeços, mas o roteiro final dos Jogos falou de recuperação, identidade e reputação. A primeira imagem que muitos ainda guardam foi a da transmissão da Rai, com o desastrado e improvisado debut de Paolo Petrecca, episódio que virou meme e fez a imprensa estrangeira sorrir com a nossa velha conhecida: a cena da improvização nacional. Parecia o primeiro ato de uma tragédia anunciada.
Mas o espetáculo global não seguiu esse fio. Ao contrário: a narrativa mudou e abriu espaço para uma recuperação surpreendente. O Presidente Sergio Mattarella colocou as Olimpíadas sob uma tutela simbólica e institucional que deu estabilidade a um evento ameaçado por atrasos, suspeitas e críticas. Assim, num gesto quase cinematográfico, a figura presidencial funcionou como um contraplano que estabilizou a cena.
Quase ninguém apostava neles. Entre custos anunciados, cronogramas em dúvida, infraestruturas debatidas e a sensação de que Milano seria «muito plana» enquanto Cortina, Bormio, Livigno e Predazzo radicariam a competição numa geografia fragmentada, o argumento parecia pronto para o desastre. O que aconteceu na tela, porém, foi um reframe da narrativa nacional: a imagem da Itália ganhou credibilidade.
Os números não mentem. Locais de montanha registraram público recorde; Milano respirou festa e movimento, com transporte público mais cheio — e alguns inevitáveis desconfortos. Mas grandes eventos são assim: geram vida, não silêncio. A cobertura concorrente, da Eurosport, apareceu como um bloco bem afinado, com apresentadores e comentaristas preparados há anos para o grande desafio, evidenciando a defasagem da emissora estatal em termos de profissionalismo na transmissão esportiva.
Houve também motivos para orgulho esportivo. A contagem italiana registrou: 10 ouros, 6 pratas e 14 bronzes — além de recordes de finalistas e o desempenho histórico da Federação do Gelo. O hino nacional soou inúmeras vezes. Federica Brignone não venceu por acaso; dominou e deu lições de técnica e caráter. É essa emergência sob pressão que separa campeões de fenômenos fabricados nas redes. Arianna Fontana seguiu no mesmo compasso, e a história de Tommaso Giacomel — perfeito até o primeiro polígono, depois a dor, a desistência e a declaração: “É devastante parar… mas nunca vou me render” — virou uma parábola sobre competitividade e dignidade.
A escolha de uma Olimpíade diffusa revelou-se bem menos improvisada do que muitos sugeriram: utilizar polos onde já existem expertise e instalações transformou uma aparente costura em uma estratégia eficiente. Cortina trouxe o prestígio do esqui, Milano converteu-se em palco do gelo; tudo somado compôs um mosaico que valorizou competências locais e ampliou o alcance do evento.
Na pista internacional, as palavras de Kirsty Coventry, presidente do Comitê Olímpico Internacional, soaram como um selo: “fonte de inspiração global” e “al di là delle aspettative”. Nos Estados Unidos, NBC e Peacock alcançaram mais de 20 milhões de espectadores diários em boa parte do evento, prova de que reputação se traduz em audiência — e, sobretudo, em futuro.
Portanto, a história desses Jogos é dupla: há o espelho das falhas — a cobertura improvisada, o clímax embaraçoso de Petrecca — e há o roteiro de superação: lideranças institucionais, organização efetiva e performances que atravessam a mera narrativa esportiva para tocar a memória coletiva. Foi um evento que revisitava a tradição de Cortina ’56 como vitrine de renascimento, mas que também projetou uma Itália contemporânea, capaz de surpreender quando a cena pede autenticidade.
Em termos culturais, os Jogos funcionaram como um espelho do nosso tempo: mostram uma sociedade sempre à beira do improviso, porém capaz de compor, com esforço e arte, um final digno. A lição é simples e complexa: a imagem se reconstrói quando a instituição, o talento e a cidade entram em sincronia. E isso, no fundo, é o roteiro oculto de qualquer grande evento.





















