Michele Bravi volta ao palco do Ariston pela terceira vez trazendo uma canção que funciona como um monólogo interior traduzido em música. Em Prima o poi, o artista dá voz ao que muitos vivem em silêncio: o persistente senso de inadequação que nos coloca sempre um passo fora do cenário.
Com o humor ácido e a ironia que já caracterizam sua voz pública — ele mesmo se define como cínico — Bravi conta que recebeu a notícia de sua volta a Sanremo de forma quase acidental. “Juro, eu estava no Haiti, num lugar perdido na mata, sem sinal. Soube que tinha sido escolhido três dias depois do anúncio dos 30”, disse, lembrando do contraste entre sua vida nômade e o ritmo frenético do festival. A cena é quase cinematográfica: o artista isolado, desconectado, descobrindo tarde o convite para o palco mais exposto da Itália.
Entre anedotas e observações precisas, ele compartilha algo íntimo: “Foi a primeira vez que minha mãe, no grupo de família do WhatsApp, escreveu: finalmente uma bela canção.” A frase, simples, atua como um espelho do reconhecimento que muitos artistas buscam fora de si, e revela também o lado humano e doméstico por trás da imagem pública.
A gênese de Prima o poi remonta a três anos atrás. Bravi confessa ter o hábito de iniciar projetos e deixá-los à espera — esboços que viram embriões de canções. Hoje, a faixa ganhou forma e ele a descreve como algo de natureza “cinematográfica”: “A ideia que temos do sofrimento é diferente da experiência real. No imaginário, o sofrimento ganha contorno perfeito, quase esteticizado, mas na vida ele é fragmentado, áspero, irregular.”
Essa reflexão é, em si, um reframe da realidade: enquanto o cinema tende a uniformizar emoções em imagens limpas, a existência insiste em cores dissonantes. O trabalho de Bravi cabe exatamente aí — como um roteiro que desmonta a estética confortável do drama para expor sua textura real.
Sobre Sanremo, ele não poupa ironia: vê o festival como um microcosmo tragicômico, “um lugar onde cabem tanto o drama quanto a comédia, onde o grotesco aparece e tudo está junto”. Entre a aparente leveza dos bastidores e a pressão do palco, Bravi observa que não consegue se imaginar “fighissimo” dentro daquele espetáculo; ele se sente, na verdade, em permanente deslocamento.
Não falta também posicionamento político-cultural: questionado sobre a hipótese de participar do Eurovision caso vença em Sanremo, sobretudo diante da presença de Israel no evento, Bravi afirma compreender os motivos de quem opta pelo boicote. Porém, pondera que o Eurovision é antes de tudo uma competição musical — uma vitrine de culturas sonoras, não necessariamente um palco de militância. “Tenho uma opinião muito clara sobre a questão palestina, mas sou contra qualquer cultura da anulação”, disse, evitando que a música seja reduzida a um único banner político.
Ao final, a sua volta ao festival funciona como um espelho do nosso tempo: um artista que recusa a imagem perfeita e preferiria revelar as fissuras da experiência humana. Em “Prima o poi”, Michele Bravi não só canta a sensação de estar fora de lugar — ele a legitima como parte do roteiro oculto que define grande parte da nossa contemporaneidade.






















