Michela Cescon dirige Guarda le luci, amore mio, adaptação do romance de Annie Ernaux — Nobel de Literatura 2022 — que coloca duas mulheres em cena num hipermecado como se estivéssemos diante do espelho do nosso tempo. Em cartaz no Teatro Gobetti, em Turim, e com temporada prevista no Carcano, em Milão, o espetáculo reúne as atrizes Valeria Solarino e Silvia Gallerano para encarnar, em dois corpos, a mesma observadora: a autora que vigia hábitos, desejos e compras numa narrativa quase etnográfica.
Na direção, Cescon não apenas transcreve a escrita obsessiva de Ernaux — que passou um ano frequentando o supermercado para mapear comportamentos humanos e seus transtornos de consumo —, mas também oferece um reframe biográfico: as duas protagonistas são a mesma pessoa que se observa, desdobrada em reflexos que interrogam memória, identidade e o roteiro oculto da vida cotidiana.
Formada como atriz de teatro, mas com passagem marcante pelo cinema, Michela Cescon traz para os palcos uma sensibilidade de quem conhece bem os bastidores do fazer artístico. Conta ela que sua vocação começou depois de um acidente grave em Treviso: ‘‘Eu estava de moto, sofri uma queda e, durante a recuperação, decidi prestar exame para a escola do Teatro Stabile de Turim. Fui aceita por Luca Ronconi’’. Aquela crise, explica, teve um efeito que hoje soa como metáfora: acidentes, às vezes, são pontos de inflexão que reescrevem um destino.
No cinema, a virada veio com Matteo Garrone, que a convidou para Primo amore após vê-la em um pequeno teatro romano. Para aquele papel, ela teve que perder quinze quilos em pouco tempo. Por outro lado, recorda com leve ironia, Marco Bellocchio não a escalou para Vincere porque ela estava grávida do segundo filho: ‘‘a vida é assim…’’. Essas anotações biográficas não são apenas curiosidades; elas funcionam como pontos de contato entre decisão artística e contingência social — a semiótica do trajeto de uma atriz e diretora mulher.
Cescon é mãe de três filhos e há nove anos não atua em cena. Optou por se dedicar à seleção de textos e à direção, controlando o processo criativo e também o significado político de suas escolhas: ‘‘Quando eram pequenos, eu os levava em turnê ou para o set, mas depois senti que deveria escolher meu caminho. Em Guarda le luci, amore mio envolvi duas atrizes — foi uma escolha também política’’, comenta.
Sobre desigualdade de gênero nas artes, Cescon é direta: ‘‘Há, sim, desigualdade. No teatro e no cinema é difícil para uma mulher encontrar espaço. Existem poucos papéis femininos e temporadas muitas vezes pensadas para homens. Além disso, há o problema da idade: as atrizes envelhecem e os papéis se reduzem’’. A crítica dela atinge estruturas que produzem repertórios e temporadas, e não apenas indivíduos: é o sistema de produção cultural que precisa ser reenquadrado.
O espetáculo, ao mesmo tempo em que reconstrói as observações minuciosas de Ernaux sobre consumo e desejo, funciona como um espelho teatral que devolve ao público o cenário de transformação social. A opção de representar a autora em duplicidade cria um efeito de distanciamento e intensificação: vemos uma única consciência fragmentada, como se o palco fosse um laboratório de memória e um mapa das decisões femininas ao longo da vida.
Como analista cultural, eu diria que o trabalho de Cescon opera num ponto de interseção entre literatura, performance e crítica social. Não se trata apenas de adaptar um texto laureado, mas de usar o palco para evidenciar como as narrativas coletivas são organizadas — e para quem. Em tempos em que discutimos representatividade e paridade, esse espetáculo nos convoca a olhar para as ombreiras do repertório teatral: quem escreve temporadas, quem escolhe as dramaturgias e quem ocupa os espaços cênicos?
Em um mercado cultural que ainda privilegia narrativas masculinas, a direção de Michela Cescon soa como um gesto de resistência sofisticada — uma maneira de reorientar o foco, questionar as luzes que definem o que merece ser visto e, sobretudo, de exigir que o teatro se reveja. O convite é para ir ao teatro não apenas como entretenimento, mas como leitura ativa do nosso tempo — um roteiro em que a forma e o conteúdo se entrelaçam para revelar o que permanece fora do quadro.






















