Por Chiara Lombardi, Espresso Italia
Mais de duas décadas após A Paixão de Cristo, o cineasta Mel Gibson retorna a Matera para rodar o tão aguardado sequel, The Resurrection of the Christ, anunciado oficialmente para filmagens entre fevereiro e abril no Parco della Murgia materanense. A escolha do local não é casual: trata-se de um cenário que, como um cenário de pintura barroca, carrega uma carga simbólica, histórica e paisagística capaz de reencenar mitos e memórias.
Segundo a produção, cerca de 500 profissionais — entre equipe técnica, artística e produção — estarão presentes na cidade durante a realização das cenas. O impacto é multifacetado: além da visibilidade internacional, a presença das filmagens promete efeitos concretos na economia local e na geração de empregos temporários. Em tempos em que a indústria audiovisual busca territórios com identidade, Matera volta a ser o espelho de uma narrativa religiosa que dialoga com memórias coletivas e com a iconografia europeia.
Em conferência de serviços promovida pela prefeitura, a produção informou que Mel Gibson não só assina a direção como também é coautor do roteiro, e que manifestou reiteradamente o desejo de que a história se desenvolvesse em Matera. A manutenção do vínculo com a cidade nasce, portanto, de uma opção artística consciente: reconhecer a singularidade do entorno como elemento narrativo essencial, quase como um personagem situado no roteiro oculto da obra.
O prefeito Antonio Nicoletti destacou a centralidade de Matera no projeto, ressaltando que a decisão do diretor é um reconhecimento do valor local e uma oportunidade para fortalecer a presença de grandes produções internacionais no território. “É um reconhecimento importante que riporta da noi le grandi produzioni internazionali”, afirmou Nicoletti, enfatizando a colaboração plena entre instituições e produção e o compromisso com a tutela ambiental e cultural do patrimônio.
Paralelamente aos preparativos logísticos e autorizativos, a produção abriu seleção para figurantes, movimentando comunidades e oferecendo participação direta na realização de um filme que, por sua natureza, ressoa em esferas religiosas e culturais amplas. A expectativa é que o processo de escolha envolva moradores e profissionais locais, ampliando o alcance social do projeto.
Do ponto de vista cultural, o retorno de Mel Gibson a Matera opera como um reframe daquilo que chamamos de cinema de fé: não se trata apenas de reproduzir episódios sagrados, mas de reativar imagens e signos que estruturam a memória coletiva. A proposta de uma possível ressurreição narrativa — explícita no título Resurrection — funciona como metáfora e desafio: como reinterpretar um acontecimento que já foi traduzido em formas tão definitivas?
Enquanto as câmeras se preparam para captar as pedras e as paisagens rupestres da região, fica em aberto o que a nova obra dirá sobre fé, representação e o eco cultural que atravessa o século. Matera volta a ser palco e espelho, um lugar onde o passado e o presente se encontram para reescrever, em cena, fragmentos do nosso tempo.





















