Megadeth, após mais de quatro décadas de riffs cortantes e uma postura sonora sem concessões, apresenta ao mundo o seu disco que promete ser o último de estúdio da trajetória da banda. Lançado em 23 de janeiro, o álbum Megadeth recoloca o grupo de Dave Mustaine no topo das paradas: número um na Billboard Top 200 e entre os cinco primeiros em diversos países, inclusive na Itália.
Essa retomada emocionante foi comentada por Dirk Verbeuren, baterista da banda, em entrevista ao AdnKronos. Com a perspectiva de quem acompanha as listas musicais desde a infância — “eu ouvia a Top 30 na Bélgica e meu pai ainda acompanha as paradas” —, Verbeuren confessou que o resultado ultrapassou suas expectativas. “Eu esperava que fosse bem, mas que chegasse ao número um na Billboard… é uma sensação insana”, diz o músico.
O gesto simbólico de batizar o trabalho com o próprio nome do grupo não foi totalmente planejado, segundo a narrativa interna: Dave Mustaine não encontrava um título adequado e optou por um álbum homônimo, algo que a banda nunca havia feito antes. Ainda assim, essa escolha acabou funcionando como um espelho: o disco sintetiza elementos identitários que marcaram a trajetória do conjunto, resgatando referências do período inicial e da metade dos anos 90.
Musicalmente, Megadeth entrega riffs complexos, solos hipnóticos e uma bateria poderosa. O retorno a timbres e estruturas que lembram o passado da banda levou a comparações com a fase dos anos 90 — uma influência que não foi forçada, mas resultou de um processo criativo introspectivo. “Escutamos juntos toda a nossa discografia, mais de 200 músicas”, conta Verbeuren, em um exercício quase arqueológico que serviu como catálogo de inspirações. O objetivo era claro: fazer o melhor álbum possível, sem refazer receitas antigas.
Para o baterista, a produção trouxe desafios técnicos e estéticos. A busca por um som de bateria mais natural, com poucas intervenções artificiais, visou aproximar a gravação da experiência ao vivo. Esse pathos orgânico se encaixa no conceito do disco como uma espécie de retorno às raízes, mas com a maturidade sonora de quem já conquistou o mundo.
Ao olhar para o sucesso comercial e crítico, é impossível não ler o fenômeno através de uma lente cultural: Megadeth é parte do chamado “Big Four” do thrash — ao lado de Metallica, Slayer e Anthrax — e seu impacto atravessa gerações. O álbum, então, funciona como uma peça que reconta um roteiro oculto da própria cena metálica, sublinhando que o metal ainda pode deixar marca no presente, não apenas como memória nostálgica, mas como força viva.
Além do lançamento, a banda já organiza uma turnê que passará pela Itália em junho, reforçando o vínculo afetivo com o público europeu. Para Verbeuren, o êxito inesperado é também um sinal de que a linguagem pesada tem espaço para se renovar e continuar impactando plateias globalmente.
Como observadora do cenário cultural, dirijo a atenção ao que esse movimento revela: não se trata apenas de um retorno comercial, mas de um reengajamento da identidade artística. O disco Megadeth funciona como um espelho do nosso tempo — uma narrativa sonora que resgata a história para, ao mesmo tempo, reescrever o presente.
Em última instância, a trajetória que culmina nesse trabalho pode ser lida como uma história de resgate — não apenas pessoal ou de mercado, mas de um gênero capaz de rearticular-se. E, como toda grande produção cultural, este álbum convida a reflexão: por que certas sonoridades voltam a dialogar com a contemporaneidade? A resposta, talvez, esteja no poder do metal em persistir como forma de expressão coletiva e como registro do nosso tempo.
Assinado: Chiara Lombardi, para Espresso Italia — uma leitura cultural sobre música, memória e o roteiro oculto da sociedade.






















