Por Chiara Lombardi — Em mais um movimento lateral da sua carreira multifacetada, Maynard James Keenan, a mente por trás de Tool e A Perfect Circle, retorna com o projeto mais experimental e livre do seu repertório: Puscifer. O novo álbum, Normal Isn’t, chega em 6 de fevereiro e é uma observação sonoramente afiada sobre um mundo em aceleração — um espelho do nosso tempo onde o goth encontra o post-punk e a guitarra ressurge como motor de densidade emocional.
Composta por onze faixas, a obra caminha entre a eletrônica sombria e um humor cortante que já é marca do Puscifer, mas apresenta uma espontaneidade renovada no processo criativo. Keenan assumiu, pela primeira vez, a construção inicial das ideias via um sistema de gravação digital pessoal — moldando riffs, estruturas e atmosferas antes de dividir o material com Mat Mitchell e Carina Round. O resultado é um disco onde as influências das primeiras experiências musicais do grupo emergem com mais nitidez, porém reconfiguradas num terreno mais obscuro e guiado pela guitarra.
Ao conversar comigo, Keenan foi direto: “isso não é normal.” Ele contextualiza a declaração com um recorte geracional: aos 61 anos, observa a filha de 11 anos absorvida por um ecossistema de atenção mediada por algoritmos. A partir desse ponto, emerge a crítica que permeia o disco: a escalada da dependência da dopamina ofertada pelas redes sociais, a polarização e a forma como o poder hoje se instala — nem sempre pelo mesmo roteiro histórico, mas por vias tecnologicamente novas e inquietantes.
Musicalmente, Normal Isn’t é uma colagem bem-sucedida entre textura eletrônica e a austeridade pós-punk; é como se olhássemos para um filme noir contemporâneo em que os cenários digitais projetam sombras mais duras. A voz de Keenan age como narradora desse roteiro oculto da sociedade, enquanto a banda explora passagens em que o humor ácido contrasta com passagens góticas, criando um eco cultural que desafia qualquer conforto auditivo.
Além do álbum, Keenan se prepara para voltar à Itália em junho com A Perfect Circle, em data marcada no Ferrara Summer Festival — um lembrete de que, mesmo em territórios experimentais, existe uma ponte entre o íntimo da estúdio e a comunhão ao vivo. Em sua fala, há também um princípio ético: “a arte salva vidas, não as botas no pescoço” — um jargão que traduz, com clareza cortante, a visão do artista sobre a potência transformadora da criação frente às formas de opressão.
Como observadora do zeitgeist cultural, vejo em Normal Isn’t mais do que um álbum: é um pequeno tratado sobre os contornos da normalidade no século XXI. Entre guitarras cortantes e batidas digitais, Keenan e o Puscifer nos convidam a reavaliar como o mundo nos molda — e como a arte continua sendo um instrumento de resistência e reframing da realidade.
O disco promete ser, portanto, tanto um registro musical quanto um espelho crítico: uma trilha sonora para tempos inquietos, destinada a quem busca entender o “porquê” por trás do ruído. E, como todo bom filme que provoca, deixa pistas suficientes para que o público reconstitua, por si só, o enredo social que nos atravessa.
















