Max Pezzali desembarca em Sanremo não como um comandante de navio, mas quase como o atípico bilheteiro de uma travessia sentimental. O cantor — figura central do universo pop dos anos 90 com os 883 — será o convidado fixo do Festival a partir da cruzeiro Costa Toscana, ancorada em frente ao porto, e descreve essa experiência como uma espécie de reframe: uma oportunidade de revisar seu passado com o Festival e de oferecer ao público cinco noites de música temáticas.
“Nem me via no papel de capitão”, ri Pezzali. “No máximo, com essa jaqueta azul, posso fazer o bilheteiro.” A autodepreciação esconde a surpresa genuína de quem não imaginava receber tanto afeto: “Nunca pensei que poderia alcançar esse nível de carinho do público. Com os 883 não fizemos a famosa gaveta; não éramos extraordinários no talento nem na aparência, mas tínhamos a convicção de ter algo a dizer. A normalidade, que eu via como limite, virou minha sorte.”
Durante as noites do Festival, a embarcação será palco de pequenos concertos e conexões ao vivo, cada apresentação com um tema diferente. Haverá uma noite disco, inspirada por “La regola dell’amico”; uma viagem ao velho oeste estilo “Nord Sud Ovest Est”; a sessão “Love Boat” com as baladas românticas do tipo “Come mai”; a “Sala jogos” evocando “Jolly blu”; e os “Happy days” para celebração. “Será algo entre o imaginário e o infantil”, descreve Pezzali, como quem traça um storyboard afetivo que dialoga com memórias coletivas.
A bordo, tudo foi devidamente “pezzalizado”: uma pizzaria chamada “Con un deca”, torneios de futsal, uma sala de videogames e quadrinhos espalhados como cenografia. A ideia da cruzeiro remete às grandes loucuras de espetáculos americanos, lembra ele: “Sempre fui obcecado por locações inusitadas para concertos. Pensei nas cruzeiros de artistas como Kiss ou Jimmy Buffett, mas faltava a nave e alguém disposto a essa loucura. O próximo passo será uma cruzeiro dedicada.”
Mais do que um espetáculo temático, a participação na cena de Sanremo funciona como uma espécie de reconciliação. “Com essa catedral do que é música e espetáculo na Itália eu tenho um relacionamento difícil: estive lá duas vezes (1995 e 2011) e nunca correu bem. Fui com a música ou com a atitude errada. Desta vez chego ao Festival pedindo desculpas por aquelas outras aparições.”
A lembrança mais amarga é de 2011. “Fomos às pressas, só para bater o cartão. Fui eliminado na sexta-feira e voltando para casa pensei que talvez não fizesse mais sentido continuar com este trabalho.” Foi justamente o ano seguinte, com o disco comemorativo de “Hanno ucciso l’uomo ragno” em parceria com a cena rap, que deu novo fôlego à carreira.
O ciclo seguinte provou que não havia fim anunciado: o San Siro de 2022 detonou a expectativa de algo pontual — ingressos esgotados e uma onda de demanda que o próprio artista descreveu como uma explosão. “Pensei que seria uma coisa one-shot, uma espécie de prêmio à carreira.” Hoje, no entanto, o plano já é maior: está previsto uma série de estádios neste verão, uma turnê europeia e uma residência na nova arena olímpica de Milão em dezembro.
Além disso, a narrativa de sua trajetória continuará na tela: está a caminho a segunda temporada da série da Sky sobre os 883. A possibilidade de uma terceira temporada focada nele próprio instiga Pezzali: é o tipo de revisão biográfica que transforma o artista em espelho do público e do tempo.
Se a experiência em Sanremo soou, por muito tempo, como um palco de tropeços, a cruzeiro da Costa Toscana surge como um roteirizado ato de reparação — um roteiro oculto que reescreve frustrações em celebração. Como em um filme de recuperação, Pezzali parece disposto a subir ao convés, ajustar a jaqueta azul e, sem pretensão de capitão, embarcar numa travessia que mistura memória, espetáculo e uma curiosa nostalgia pop. O entretenimento aqui é menos sobre fama e mais sobre recuperar o laço com a plateia: um eco cultural que confirma que algumas histórias nunca terminam, apenas mudam de cena.






















