Por Chiara Lombardi, Espresso Italia
Houve um momento — não tão remoto — em que, para uma banda de rock, aceitar o convite para o Festival de Sanremo era quase uma autópsia de credibilidade. Entre os que romperam essa divisão tão rígida entre underground e mainstream estão os turineses Subsonica, que em 2000 atravessaram o Rubicão e levaram do cenário dos Murazzi do Po para as salas de jantar da Itália uma canção que mudou sua visibilidade pública.
Conversei com o guitarrista e motor criativo da banda, Max Casacci, para revisitar aquela pequena revolução cartesiana. A narrativa, disse ele, começa com resistência: “A princípio não queríamos ir. Tínhamos construído uma street credibility, com um boca a boca nas revistas especializadas e no primeiro Internet. Naquela época a música era quase uma religião monoteísta, e o Festival não era a nossa igreja”.
Quem os convenceu? A pressão veio do selo. Havia também receio alimentado pela memória de outras experiências: os Pitura Freska haviam sido, em certa medida, ‘triturados’ pelo mecanismo festivalier alguns anos antes. Ainda assim, havia algo na proposta que soava irresistível. “Levantamo-nos para dizer não”, lembrou Casacci, “mas um riff de guitarra começou a rodar na minha cabeça. Talvez uma canção que soasse verdadeira para nós pudesse funcionar até mesmo no palco de Sanremo”.
Nasceu assim “Tutti i miei sbagli”, um tema que, embora parecesse autobiográfico aos olhos do público, tinha raízes estéticas menos óbvias: Casacci cita como referência o gesto de Battiato em “Per Elisa”, escrita para Alice no Sanremo de 1981 — uma canção com camadas que falava tanto de mulher quanto de vício, com um duplo fundo interpretativo.
Quando a banda decidiu aceitar, chegaram também os conselhos dos ‘especialistas’: “A introdução instrumental não vai; muda o refrão; faz isto ou aquilo”. A resposta dos Subsonica foi intransigente: iriam a Sanremo sem se desfigurar. “Nos sentimos como turistas no zoológico”, disse Casacci, com ironia. E, no palco, houve mais daquilo: no segundo dia, o estilista que deveria vesti-los os deixou na mão e eles subiram usando as camisetas do merchandising — uma cena que dizia muito sobre autenticidade e ironia de estilo.
O resultado prático foi inesperado para muitos: a canção tornou-se a mais tocada nas rádios naquele período. Na classificação final, ficaram em décimo primeiro lugar — “achávamos que ficaríamos em último, como o Vasco”, brincou Casacci — e, apesar do aparente pouco efeito imediato, aquele episódio abriu fissuras importantes no discurso cultural sobre quem poderia falar ao grande público.
Curiosamente, a geração dos Subsonica era menos dogmática: Casacci remete àquela X mais jovem, sem referências fixas, mais fluida no consumo musical. Essa fluidez permitiu que o gesto tivesse um eco além da passagem no Festival — embora a banda mantivesse limites claros: recusaram convites como o Festivalbar, mantendo o controle sobre sua trajetória.
O saldo, na minha leitura, é emblemático do roteiro oculto da sociedade: um grupo originado nas margens do cenário alternativo usa um palco tradicional para reconfigurar as possibilidades de circulação cultural. A performance dos Subsonica em Sanremo 2000 foi menos uma capitulação e mais um reframe da realidade — uma demonstração de que a narrativa musical pode operar como espelho do nosso tempo, refletindo tensões entre identidade, mercado e memória coletiva.
Hoje, Casacci é categórico: eles não voltariam a Sanremo. Não por rancor, mas porque o gesto daquele ano foi pontual e significativo no seu contexto — um capítulo escrito com honestidade estética. E, como em todo bom roteiro, o que importa não é apenas o ato em si, mas o que ele revela sobre a cena cultural maior.
Curiosidade sofisticada: pense em Tutti i miei sbagli como um close numa cena maior — um plano que altera a continuidade e nos obriga a reavaliar o enquadramento.






















