Maurizio Ferrini reinventou-se quando a sua criação, a Signora Coriandoli, deixou de ser uma caricatura e passou a funcionar como um espelho — irônico e afiado — do imaginário popular italiano. Em entrevista que revisita trajetórias e lembranças, Ferrini conta desde as inspirações domésticas até encontros insólitos com nomes do cinema e da indústria, revelando por que o personagem, nascido no fim dos anos 1980, ainda reverbera hoje.
A origem da dama romagnola, com seu humor de província e erros de linguagem deliciosos, nasceu de um mosaico de mulheres reais: a mãe Rina, a tia Elsa e uma vizinha chamada Ada. “Um pot-pourri de mulheres”, diz Ferrini — e é justamente essa composição que torna a Signora Coriandoli um personagem a todo o tom, longe da macchietta bidimensional.
As primeiras aparições em televisão, na época de Domenica In, mostravam uma versão ainda em maturação: fala acelerada, barba mal aparada e figurinos imprecisos. A virada ocorreu em 1992, quando a personagem desembarcou em Striscia la notizia e ganhou contorno definitivo. Ali, o rascunho virou personagem e o bordão “Non capisco ma mi adeguo” tornou-se um refrão que captava o humor e a desorientação de uma sociedade em mudança.
Ao reconstituir sua carreira, Ferrini lembra dos encontros com colegas e mestres: a convivência com Alba Parietti, que por vezes sofria o peso do contraste entre beleza e máscara; a parceria com Sergio Vastano, cuja vontade de aparecer às vezes se impunha, mas que tinha grande sentido de humor; e a camaradagem com Ricci, capaz de criar um clima de leve rebeldia estudantil nos bastidores.
Há também o capítulo decisivo com Renzo Arbore. Ferrini conta que mandou uma única cassete, acreditando pouco na resposta, e só recebeu o retorno um ano e meio depois. Quando Arbore o convocou para Quelli della notte, alguns dos elementos que hoje reconhecemos na Coriandoli já estavam sendo pensados — e foi ali que o personagem comunista-representante-de-pedalò da fictícia Cesenautica encontrou sua forma. “A Romagna era a pátria dos comunistas e dos pedalò”, lembra, com a ironia necessária para transformar memória regional em representação nacional.
Além das anedotas profissionais, surgem episódios que parecem cenas de um roteiro não roteirizado: Ferrini diz que Sergio Leone o queria para um trabalho, porque estava “cansado de Sordi”; conta também que chegou a cantar a Bandiera rossa em casa de Agnelli — imagens que soam como microfábulas do encontro entre contracultura e alta sociedade. E sobre figuras contemporâneas como Pucci, a posição é direta: “Sto con lui” — um apoio que mistura lealdade pessoal e afinidade estética.
Mais do que curiosidades, essas memórias ajudam a decifrar o quadro mais amplo: a Signora Coriandoli não é apenas um personagem de TV, mas um indicador cultural. Ela registra o reframe da realidade italiana — o roteiro oculto que conduz percepções sobre classe, política e a comicidade do cotidiano. A sua trajetória ilustra como uma máscara pode, com precisão, refletir tempos e tensões, transformando erros de linguagem em uma espécie de semiótica popular.
Ferrini, ao mesmo tempo, revela um respeito quase sacral pela linhagem dos criadores: quando Arbore pediu que aguardasse, ele esperou. Esse gesto resume a ética artística de quem entende que fama é um fluxo e que certos papéis pedem o tempo certo para emergir. Hoje, ao revisitar essas cenas, vemos mais do que risos; vemos a arquitetura cultural que moldou uma figura capaz de traduzir o nosso tempo em falas simples e contundentes.
Chiara Lombardi, por Espresso Italia






















