Martina Stella vence inseguranças e volta ao palco em Cantando sotto la pioggia
Por Chiara Lombardi — Em um retrato que é ao mesmo tempo espelho e roteiro do nosso tempo, Martina Stella retorna aos palcos italiana com a leveza de quem aprendeu a transformar incertezas em impulso criativo. A atriz, hoje com 41 anos e mãe, é uma das protagonistas do musical Cantando sotto la pioggia, produzido por Fabrizio di Fiore, em cena a partir de 25 de fevereiro no Teatro Nazionale de Milão e depois em turnê por toda a Itália.
No espetáculo ela interpreta Lina Lamont, aquela diva cinematográfica incapaz de aceitar que seu tempo passou — um papel cômico do início ao fim, que exige ritmo, ironia e muita coragem dramática. Para Martina, foi “um presente louco” e ao mesmo tempo “uma grande prova”, porque o personagem mora no lado mais tragicômico da fama: emocionalmente desalinhada e presa a uma voz que a desarma.
Na vida real, entretanto, a atriz conseguiu conservar algo da frescura dos seus primeiros passos: uma naturalidade distante do divismo. “De base sou uma mãe”, disse ela — e é justamente dessa honestidade que nasce sua imagem pública: uma profissional que cedo realizou um sonho e teve de aprender a viver com ele.
Martina sempre amou o musical, mas inicialmente como espectadora. Sua entrada nesse universo como intérprete foi quase fortuita. Aos 17 anos, foi convocada por Pietro Garinei para Aggiungi un posto a tavola, no Sistina — um começo em palco que a colocou lado a lado com grandes mestres, ao mesmo tempo em que a deixava ainda em formação, tanto artística quanto humana. Ela lembra que fazia aulas de canto na casa de Armando Trovajoli e que completou 18 anos cantando e atuando no próprio Sistina.
Sobre a relação com a comédia, Martina confessa que nunca interpretou um personagem tão completamente cômico como Lina Lamont. “Ela enfrenta dores profundas com um sorriso”, diz. Na biografia profissional de Stella, há papéis dramáticos e leves, um percurso que a moldeou enquanto ator e pessoa.
Ao recordar sua carreira precoce — o salto para a fama aconteceu muito jovem — ela admite ter enfrentado momentos de grande insegurança. “Pensei muitas vezes em desistir”, revela, “mas depois venci minhas inseguranças”. Essa vitória pessoal não é apenas um êxito íntimo; é também o motor que a levou a criar um espaço de testemunho: o vodcast “Casi umani”, onde Martina conta episódios amorosos e humanos com franqueza e empatia, transformando histórias individuais em um pequeno estudo de comportamentos contemporâneos.
Questionada sobre amor e escolha, ela recorda que o diretor Gabriele Muccino a escolheu para L’ultimo bacio porque tinha em mente justamente uma figura como ela — uma jovem que sabia desde cedo o que queria. Essa certeza, somada à prática constante, moldou sua trajetória. “Comecei muito jovem e isso me trouxe vantagens, mas também uma certa imaturidade de vida que precisei cultivar com experiência”, reflete.
O que emerge desta conversa é uma imagem complexa: Martina como atriz que aceita desafios fora de sua zona de conforto — do cinema para o musical, do drama para a comédia — e como narradora de suas próprias feridas e descobertas no vodcast. Em um mundo em que o entretenimento pode ser apenas consumo, ela oferece um reframe: o palco e o microfone como ferramentas para mapear identidades, memórias e o roteiro oculto da sociedade.
Para o público, Cantando sotto la pioggia representa mais do que um revival cinematográfico; é uma oportunidade de ver uma artista que soube congelar a autenticidade dos primórdios e transformá-la em maturidade emocional. E o vodcast Casi umani surge como complemento íntimo dessa narrativa, onde o pessoal torna-se política de afeto — pequenas histórias que reverberam como um eco cultural.
Martina Stella volta, portanto, não apenas para atuar: retorna para contar, refletir e provocar. Como toda boa cena, a sua presença sugere perguntas que ficam acesas na plateia — sobre fama, tempo, fragilidade e o jeito como amamos no presente.






















