Em um gesto que parece um pequeno interlúdio no grande roteiro do Festival, Mario Luzzatto Fegiz, crítico musical do Corriere della Sera, será agraciado com uma das Riconoscenze FIPI 2026. A cerimônia acontece em Sanremo, na sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026, às 14h, no Grand Hotel Londra — um encontro aberto ao público que promete unir reconhecimento institucional e afeto do público pela crítica cultural.
A premiação, promovida pelo Fórum Internacional da Propriedade Intelectual (FIPI), chega como um aceno àquilo que sustenta qualquer ecossistema criativo: a memória coletiva e o respeito pela propriedade intelectual. Nas palavras que justificam a homenagem, trata-se de “um hino à memória cultural e ao respeito da propriedade intelectual”.
Além de Mario Luzzatto Fegiz, recebem a Riconoscenza FIPI 2026 o compositor e cantor Tony Renis e Mario Volanti, fundador da Radio Italia. A iniciativa destaca três papéis distintos, mas complementares, no processo de construção do patrimônio musical italiano: a análise crítica, a criação autoral e a aposta na infraestrutura de difusão nacional.
O FIPI explica que a escolha de premiar um crítico “histórico e visionário” como Mario Luzzatto Fegiz é também uma forma de reconhecer «o valor da análise, da competência e da liberdade de julgamento no relato da música italiana». Há aqui um reconhecimento de que, no espelho da crítica, se reflete não só o gosto do presente, mas a memória e as coordenadas que tornam possível a construção de tradição.
No caso de Tony Renis, a associação presidida por Davide Rossi ressalta «o papel central dos autores na construção da identidade musical do país» — um lembrete de que as canções não nascem isoladas, mas em diálogo com um repertório coletivo e com as condições institucionais que protegem a criação. Já Mario Volanti é premiado por ter acreditado, num período marcado pela forte esterofilia, na força e na autonomia da produção italiana, ao criar a primeira rádio privada inteiramente dedicada à música nacional.
Como analista cultural, vejo essa homenagem como um pequeno farol: não é apenas um prêmio, é um reframe da história cultural em curso. Reconhecer a crítica, o autor e o produtor-mídia é reconhecer as camadas de um ecosistema que mantêm viva a música além do hit do momento — o roteiro oculto da sociedade musical que permite a continuidade do patrimônio.
O evento em Sanremo é também sintomático do tempo: um festival que se alimenta de tendências e de redes, mas que, neste gesto, presta homenagem à profundidade e à memória. Para quem acompanha o festival como espelho do nosso tempo, a premiação da FIPI confirma que, mesmo em um cenário de consumo rápido, há instituições e atores empenhados em salvaguardar a história e os direitos que sustentam a criação.
Detalhe prático: a cerimônia é pública e realizada no Grand Hotel Londra, oferecendo ao público a chance de testemunhar uma pequena, porém significativa, consagração da música italiana.
Em síntese, a Riconoscenza FIPI 2026 devolve à cena pública a ideia de que cultura é patrimônio — não apenas um produto de mercado, mas uma narrativa contínua que merece ser protegida, analisada e celebrada.






















