Como um plano de cena que revela o passado para iluminar o presente, a nova canção de Serena Brancale, “Qui con me”, chega ao palco de Sanremo como uma homenagem íntima e dolorosamente bonita à sua mãe, Maria De Filippis. A letra, que traz versos como “Duas gotas d’água não se perdem no mar”, funciona não só como tributo, mas como um espelho do tempo — um roteiro menor que reconstrói memórias e identidade.
Maria De Filippis faleceu em outubro de 2020. Era cantora, musicista, professora e operadora cultural ligada à escola de canto Villa dei suoni, em Valenzano. Foi ela quem, desde cedo, descobriu e alimentou o talento das filhas, orientando a jornada de Serena e de Nicole (Nicoletta), que hoje assina como diretora de orquestra — ou, como prefere ser chamada, “maestro”.
Há algo de cinematográfico na trajetória de Maria: nascida em Puerto Cabello, na Venezuela, a família imigrou para a Itália quando ela era criança; cresceu em Ceglie Del Campo e, aos 14 anos, apaixonou-se por Agostino, natural de Carbonara, ao som das fitas de Pino Daniele. Esse cruzamento de sotaques e melodias latino-americanas moldou o senso estético que viria a transmitir às filhas — era comum, conta Serena Brancale, que dançassem e cantassem juntas os ritmos que Maria tanto adorava.
Como uma diretora de casting da própria vida, Maria não só incentivou a carreira musical das filhas como montou a cena: teve uma escola de música, ensinou a afinar o ouvido e a aprender notas com velocidade — “é algo que carrego dentro de mim”, diz Serena. A perda, segundo a cantora, foi um clarão repentino: “Para mim ela era tudo — era festa em casa, era a professora, era quem nos empurrava a estudar. É meu anjo”, declarou em entrevista pouco depois do festival de 2025.
A narrativa familiar também se estende ao conservatório: tanto Serena quanto Nicole estudaram no Conservatório Piccinni de Bari; hoje Nicole é docente de piano no mesmo instituto e assumiu o posto de regente ao lado da irmã no palco de Sanremo, cumprindo um ciclo prometido.
Há uma nota quase profética nessa história: poucos dias antes de morrer, Maria escreveu ao empresário da filha dizendo que sonhava em ver Serena de novo no Festival — e, desta vez, acompanhada por Nicole. A promessa saiu do roteiro íntimo e se tornou realidade em 2025, repetindo-se neste ano com “Qui con me”, onde a cantora transforma o luto em obra pública.
Nas imagens e postagens da Villa dei suoni ainda se vêem momentos de intimidade: ensaios, sorrisos, uma oralidade musical que se transmite. A canção em competição no festival não é apenas uma faixa no repertório de Serena Brancale; é a concretização de um legado materno que segue batendo palco adentro, como um eco cultural que resiste ao apagamento.
Enquanto o público aplaude no teatro e nas redes se forma o habitual frêmito do viral, há, por trás do show, uma história de educação afetiva e musical que explica o tom e a precisão da voz de Serena. É nisso que a homenagem encontra seu sentido mais profundo: transformar saudade em partitura, memória em presença. Em tempos de consumo veloz, “Qui con me” é a pausa que nos pede para ouvir não só a canção, mas o roteiro oculto que a tornou possível.






















