Por Chiara Lombardi — No Revel de Treviglio, na sexta-feira à noite, 20 de fevereiro, Marco Ligabue subirá ao palco acompanhado de sua banda para apresentar ao público Maps – Manuale alternativo per sentire, lançado em novembro passado. O disco, mais que uma coleção de canções, funciona como um roteiro sensorial — um mapa emocional que propõe ao ouvinte navegar entre paisagens externas e territórios íntimos.
Dividido em duas faces conceituais — a «geografia do mundo externo» e a «geografia interior» —, o álbum constrói um diálogo entre ecologia e memória. No Lado A, Ligabue estrutura a narrativa em torno dos quatro elementos: o fogo em «Anima in fiamme», a terra em «Toc toc ecologico», o ar em «Il vento dell’estate» e a água em «Quello che c’è». Já o Lado B volta o olhar para dentro: recordações, afetos e pequenas expedições pessoais que mapeiam afetos e fissuras.
Em entrevista, o cantor e guitarrista descreve «Toc toc ecologico» como um convite urgente à reflexão sobre nosso impacto coletivo no planeta. “É uma canção que mexe com as consciências, distante das dinâmicas mainstream, e uma das mais valorizadas ao vivo”, afirma. Essa postura se traduz também nas escolhas de palco: Marco busca praticar a sustentabilidade sempre que possível — e não é retórica de bastidor: “Viajo em elétrico”, revela, como quem desenha um pequeno gesto prático dentro de um discurso maior.
O repertório e a forma como é apresentado não são um acidente estético, mas um espelho do nosso tempo: músicas que se comportam como pequenas lâminas de um roteiro oculto, onde a canção vira sinal e o concerto, uma experiência de responsabilidade. Este é o reframe que Marco parece propor, um equilíbrio entre o espetáculo e a mensagem.
Sobre a relação com o irmão Luciano, já objeto de seu livro Salutami tuo fratello (2021), Marco confessa uma convivência feita de leveza e admiração. “Vivo o ser irmão de arte com leveza — admite —, tanto pela minha estima por Luciano, quanto por ele ter transformado, de forma tão bonita, nossa família e a própria Correggio”. Para ele, subir ao microfone não é buscar aprovação, mas mostrar convicções: “Não é para receber julgamentos e preconceitos, mas porque acredito no que faço e quero mostrá-lo”.
Quanto ao universo midiático da canção italiana, Ligabue é objetivo: pouco interesse pelo festival de Sanremo. “Durante a kermesse eu vou de férias”, brinca, esclarecendo que não é pose, mas uma escolha. Para Marco, a música não deve reduzir-se ao desfile de looks, convidados e polêmicas — ela vive nos textos, arranjos, melodias e interpretações vocais. Essa recusa é também um comentário sobre como transformamos ícones culturais em fenômenos de consumo.
Na noite do Revel, quem for assistir encontrará um artista que, sem alarde, propõe uma semiótica do viral e do íntimo: um concerto que é, ao mesmo tempo, espetáculo e pequeno manifesto. Porque, no fim das contas, ouvir é também um ato político — e Maps nos convida a ler o mundo assim, como um mapa em constante reescrita.
Onde e quando: Revel, Treviglio — sexta-feira, 20 de fevereiro, às 20h30.






















