Mara Sattei regressa ao palco do Sanremo não mais apenas como intérprete, mas como autora das próprias palavras. Com a canção Le cose che non sai di me, dedicada ao namorado e produtor Alessandro Donadei (Dona), a artista — nascida Sara Mattei, 30 anos — apresenta um recorte íntimo e técnico de sua escrita no contexto do seu novo álbum Che me ne faccio del tempo, disponível em formato digital em 13 de fevereiro e em edição física a partir de 27 de fevereiro, que incluirá o tema do Festival e três inéditos.
Depois de ter participado como intérprete em 2023 com “Duemilaminuti”, um presente de Damiano David, Sattei declara que esta volta é singular: é como se fosse seu primeiro Festival, porque traz ao palco o próprio roteiro de vida, desenhado com a sua caneta. A canção sanremese, técnico e emocionalmente exigente — começa em um registro grave e muda de tonalidade, exigindo variações e nuances vocais — foi escolhida para revelar múltiplas camadas da voz e do olhar da artista.
No diálogo sobre representatividade, Mara não poupa observações: existe ainda um evidente gender gap na música italiana. Ela lembra que o reconhecimento das mulheres como cantautoras é muitas vezes ofuscado por narrativas estéticas ou estereótipos, quando a discussão deveria se concentrar na escrita e na identidade artística. Referindo-se ao legado de vozes determinantes como Carmen Consoli — que ela homenageará na noite das covers — Sattei reivindica que a pena feminina seja finalmente levada a sério, e que não nos resignemos a papéis menores.
A lista de colegas em ascensão — Annalisa, Elodie, Anna Pepe — mostra avanços, mas, na leitura de Mara, a mudança não basta: “Não devemos nos contentar”, ela diz, na linha de um discurso que convida à exigência por reconhecimento pleno. Essa demanda se insere como um espelho do nosso tempo: a música funciona como um indicador cultural, onde identidades e memórias se reescrevem.
O texto de Le cose che non sai di me é uma declaração de amor dirigida a Alessandro. Eles se conheceram no palco, trabalhando juntos; dali nasceu uma relação que ela descreve como luz em um momento difícil. Ele assina a produção e fará a supervisão técnica nos bastidores do Festival — papel de apoio que para Mara é fundamental: “Ele é um pilar”. O casamento, já anunciado, é apresentado como culminância natural dessa união entre vida e trabalho — um enredo privado que se confunde com a narrativa pública da canção.
Como observadora do zeitgeist cultural, percebo neste retorno de Mara um pequeno reframe: não se trata apenas de um single ou de um matrimônio, mas de uma afirmação autoral que questiona a semiótica do sucesso feminino. Em sua música há compromisso com a autenticidade e com o retrato do tempo — um álbum que parece propor um cinema íntimo, onde cada faixa é um quadro daquele roteiro oculto que chama público e crítica a olhar além da superfície.
Para o público e para a crítica, resta acompanhar como essa escrita se traduzirá no palco de Sanremo e na recepção do público — se será o ponto de virada na percepção de Mara como cantautora e se ajudará a encurtar, finalmente, o fosso de gênero que ainda persiste no cenário musical.






















