Por Chiara Lombardi — Em uma volta que lê como um pequeno reframe na carreira, Malika Ayane regressa ao palco do Sanremo entre 24 e 28 de fevereiro de 2026 com a canção Animali Notturni. É a sua sexta participação no Festival: não um retorno oportunista, mas o desfecho de um percurso em que a artista se permitiu pausar, ensaiar novos gestos e reaparecer com uma leveza que soa como maturidade leve — um espelho do nosso tempo em que a experiência não pesa, transforma.
Os anos dedicados ao teatro, ela explica, não foram uma fuga: foram “uma integração, não uma alternativa” à música. No teatro, Malika incubou ideias, afinou perspectivas e reencontrou o eixo criativo que, por um tempo, lhe parecia ambíguo — “nem sabia bem para onde queria ir musicalmente, nem talvez quem eu fosse por inteiro”. Esse processo é o roteiro oculto que explica a liberdade que agora se vê na sua proposta para o Festival.
Sobre o Sanremo, a cantora é clara e elegante: “Sanremo mi ha dato tantissimo dal giorno zero”. É um ambiente em que ela se sente em casa — a orquestra, o rigor do palco, a energia coletiva. Mas Malika também afirma com franqueza que o Festival cobra presença: “se non sei abbastanza centrato, Sanremo ti mastica e ti sputa”. Por isso o retorno precisava do tempo certo para a artista entrar inteira no jogo.
O single Animali Notturni nasceu do trabalho conjunto: letra assinada por Malika com Edwyn Roberts e Stefano Marletta; composição com Giordano Cremona, Federico Mercuri e Luca Faraone; produção de Itaca e Faraone. A música a conquistou de imediato — “La canzone è bellissima. Potrei trasformarmi in un sequencer e farvi tutti i suonini”, confidou — e o tema escrito por Edwyn a pegou pelo mundo sonoro envolvente: “questo mondo sonoro che ti risucchia e ha risucchiato anche me”.
O texto chegou quase definido, um vestido pronto a ser finalizado: “le frasi che potevo aver scritto io, poi le ho scritte io. Il resto era un vestito perfetto da rifinire”. Raramente Malika se permite entusiasmos repetidos, mas esse tema a “gasa” a cada audição — um convite para que a canção volte a ser do público. Em 27 de fevereiro, Animali Notturni será lançado também em formato especial de 45 giri, com a faixa no lado A e a inédita “(siamo tutti) animali notturni” no lado B, em colaboração com o trio francês Dov’è Liana.
Há, no novo single, um eco dos primeiros anos da cantora — quase um círculo que se fecha sem nostalgia: com leveza e festa, ela promete se divertir e devolver ao Festival a importância que ele merece, sem transformar tudo em peso. “Il mio ultimo Sanremo era quello senza pubblico… questo si prenderà la metà che mancava nel 2021”, diz, com humor contido e precisão.
Além do Festival, a artista prepara o retorno aos palcos: a partir de 1º de novembro, com uma data zero em Fermo, Malika inicia um tour pelos principais teatros italianos — Roma, Florença, Milão, Turim, Bari, Nápoles, Catania, Palermo, Pádua, Bolonha, Senigallia e Pescara — em datas produzidas por Friends & Partners e Magellano Concerti. Esse roteiro acompanha a saída de um novo álbum, fruto de três anos de escrita e seleção.
Ao observar essa trajetória, vemos mais do que uma estratégia de carreira: enxergamos um pequeno mapa de transformação cultural. Como em um filme bem contado, Malika volta ao palco com figurino renovado, mas com a mesma sensibilidade que sempre fez dela uma intérprete do nosso tempo — a artista que traduz memórias, ansiedades e festas íntimas em canções que funcionam como um cenário de transformação.






















