Por Chiara Lombardi — Em sua primeira vez no palco do Ariston, o rapper napolitano Luchè explica com precisão cirúrgica por que decidiu levar sua arte ao 76º Festival de Sanremo: “A Sanremo é para ser vivida quando você se sente no seu auge, positivo e com algo a dizer”. Essa frase resume não só uma estratégia de carreira, mas um pequeno manifesto sobre como a música contemporânea brasileira e europeia se encontra com a responsabilidade simbólica do palco maior da canção italiana.
Com a faixa Labirinto em competição, Luchè desembarca no festival apoiado por números industriais: é o nome mais ouvido entre os big deste ano no Spotify, com uma média superior a 3 milhões de streams mensais e uma soma total que ultrapassa os 3 bilhões. Números que o colocam à frente de nomes muito clicados, como Fedez (cerca de 2,5 bilhões) e Tommaso Paradiso (próximo de 2 bilhões). Esses dados não são apenas estatísticas; são um termômetro do pulso cultural que o artista carrega consigo ao subir as escadas do Ariston.
Na noite dos duetos, programada para amanhã, Luchè dividirá o microfone com Gianluca Grignani. Juntos, interpretarão “Falco a metà”, uma das canções mais icônicas do repertório do cantor milanês. “A colaboração nasceu da enorme admiração que tenho por ele”, conta Luchè, traçando um delicado mapa de respeito mútuo entre gêneros aparentemente distantes. “Grignani tem uma fragilidade que muitas vezes é mal compreendida, mas também uma veia criativa que merece ser ouvida. No meu universo é normal samplear e dialogar com outros mundos musicais: musicalmente, trarei duas estrofes em rap, enquanto ele cuidará das partes cantadas de ‘Falco a metà’.”
Sobre a decisão de aceitar o convite para o festival, o rapper foi enfático: Sanremo não pode — e não deve — ser um plano B. “Já vimos artistas que chegam ao festival como um último recurso, esperando que o evento reconduza suas carreiras. Isso pode funcionar, mas também pode aprofundar uma crise. O momento de subir ao palco precisa coincidir com a fase mais alta do seu percurso artístico.” Essa leitura transforma o festival em um espelho do nosso tempo, um palco onde o roteiro oculto da sociedade e as trajetórias pessoais se encontram publicamente.
Curiosamente, Luchè já havia pisado no Ariston no início do ano como convidado de Geolier, que foi o estímulo final antes de sua estreia como concorrente: uma ligação de incentivo compartilhada nas redes pouco antes de sua entrada oficial na competição. Essa pequena cena nas redes reforça o ecossistema colaborativo entre gerações do rap italiano e a forma como o festival se tornou um ponto de convergência entre o mainstream e o subterrâneo.
Mais do que a performance em si, a presença de Luchè em Sanremo acende uma reflexão: qual é o papel de um artista que traz do rap uma narrativa de memória, território e identidade num cenário tradicionalmente voltado à canção? Sua participação pode sinalizar um reframe da realidade cultural italiana — e, talvez, abrir um novo capítulo para artistas urbanos que enxergam no festival não um porto seguro, mas um palco de risco e afirmação.
Seja qual for o desfecho na votação, a presença de Luchè com Labirinto e o dueto com Gianluca Grignani já funciona como um pequeno terremoto simbólico no mapa sonoro do festival: um encontro entre gerações que, como em um bom filme, mostra mais do que a cena — revela o que está por trás dela.






















