Por Chiara Lombardi — Em Roma, no circuito indoor do E-GoKart, foi apresentada a série Motorvalley, protagonizada por Luca Argentero e disponível em Netflix a partir de 10 de fevereiro. A transição do ator do icônico personagem de Doc para a tuta de piloto é também um movimento simbólico: não uma ruptura para apagar um rótulo, mas um novo enquadramento de carreira que explora outros contornos da identidade pública.
Luca Argentero explica que Doc permaneceu como uma presença vasta e carinhosa em sua trajetória. ‘Doc me colocou no coração das pessoas e me deu um contato direto com o público’, diz o ator, que continua gravando a quarta temporada da série médica. Assim, a escolha por Motorvalley não nasce da vontade de se livrar do jaleco, mas de provar-se em outra paleta dramática: um protagonista “menos rassicurante e menos consolador” do que o médico que conquistou audiências.
Fisicamente, Argentero preparou-se para o papel com uma transformação sutil — perdeu alguns quilos — e mergulhou no estudo do dialeto romagnolo para dar verossimilhança ao personagem. Ele interpreta Arturo, um ex-piloto marcado por um acidente que o deixou “quebrado por dentro” e em busca de um resgate pessoal. A redenção do homem-piloto passa pelo encontro com duas mulheres que carregam suas próprias fraturas: Elena (interpretada por Giulia Michelini), herdeira dos Dionisi e proprietária de uma famosa scuderia que luta para recuperar seu lugar na empresa de família, e Blu (interpretada por Caterina Forza), jovem cabeça quente atraída pela velocidade e pela adrenalina.
Todos eles perderam muito, mas carregam uma chama comum: o amor visceral pelos carros e pelas corridas. Motorvalley acompanha essa jornada íntima, ambientada no pulsar competitivo do Campionato Italiano Gran Turismo, onde a pista é tanto um espaço de realização quanto um território de risco extremo — metáfora perfeita para as tensões entre vida e espetáculo.
A série, em seis episódios, foi criada e produzida por Matteo Rovere. Naturalmente, surgem comparações com o filme Veloce come il vento, dirigido por Rovere quase uma década atrás, mas tanto o criador quanto Argentero sublinham que são obras distintas: existe um ponto de contato no eixo mentore-aprendiz — uma dinâmica que, segundo Argentero, bebe também de referências como Million Dollar Baby —, porém o tom e os conflitos narrativos seguem rumos próprios. Argentero aponta que não há semelhança com a problemática da toxicodependência que caracterizava o papel de Stefano Accorsi no filme anterior.
Surpreende também a nota pessoal do ator sobre competição: apesar de assumir-se um grande esportista que odeia perder na vida privada, Argentero confessa não sentir a competitividade no trabalho, um contraponto interessante para uma trama que gira em torno do espírito competitivo das pistas.
Motorvalley surge, portanto, como um espelho do nosso tempo — um roteiro oculto sobre identidades que correm, se reconstroem e se chocam no asfalto da memória. É uma série sobre como o amor por máquinas pode se tornar uma razão de vida — e, em alguns casos, quase uma religião.
Apresentada em Roma, a produção reúne elementos do cinema de velocidade com uma sensibilidade dramática europeia: carros, adrenalina e feridas humanas compõem o mapa afetivo desta nova aposta da Netflix, que promete acelerar debates sobre fama, redenção e a forma contemporânea de narrar o risco.






















