Por Chiara Lombardi — Em mais um movimento que reconfigura o mapa do entretenimento ao vivo europeu, a gigante americana Live Nation formalizou a aquisição do Grupo ForumNet, tornando-se proprietária do emblemático Unipol Forum de Milão. A operação inclui também o Teatro Repower, com 1.700 lugares, e o Carroponte, a célebre arena ao ar livre em Sesto San Giovanni com capacidade para até 12 mil pessoas.
O Unipol Forum, uma das maiores arenas da Itália com capacidade para 15.800 espectadores, recebe cerca de dois milhões de espectadores por ano e sustenta uma história de espetáculos que vão do pop ao rock, com nomes como Vasco Rossi, Cesare Cremonini e Tiziano Ferro. Não é apenas um palco para estrelas: é também a casa do Olimpia Milano no basquete e, com os Jogos Olimpiadi Milano Cortina 2026, sediará as competições de patinação artística e short track — um exemplo de como arenas contemporâneas vivem na interseção entre esporte, entretenimento e memória coletiva.
Segundo Roberto De Luca, presidente da Live Nation Italia, a empresa está “orgulhosa de acolher essas venues históricas de Milão e de investir no seu futuro”. O acordo prevê um plano de investimentos significativos para modernizar infraestruturas e implementar medidas de sustentabilidade com objetivo claro de reduzir as emissões de carbono. A intenção é transformar experiências ao vivo sem perder o tecido cultural que as torna únicas.
Esse episódio se encaixa em um panorama mais amplo: em 2024 o mercado italiano de eventos ao vivo gerou um valor aproximado de 4,5 bilhões de euros, e o setor vem sendo alvo de aquisições e consolidações. A Live Nation já havia ampliado sua presença no país ao comprar Milano Concerti, Indipendente Concerti e Comcerto, além de deter a plataforma de venda de ingressos Ticketmaster. Do outro lado do tabuleiro, a alemã CTS Eventim mantém papel de destaque, controlando o principal player de ticketing local, a TicketOne, e investindo em produção com empresas como Friends & Partners e Vivo Concerti. Também relevante é a presença de promotores locais como D’Alessandro & Galli, proprietários da Arena Santa Giulia — futura Unipol Dome com 16 mil lugares após as obras relacionadas às Olimpíadas.
Há aqui duas leituras complementares: a primeira, econômica, assinala a eficiência de escala e a profissionalização das redes de produção e venda; a segunda, cultural, convoca uma reflexão mais complexa. Quando um gigante global assume espaços identitários de uma cidade, o risco é que o repertório — a programação, a curadoria, as práticas comunitárias — seja reformatado segundo lógicas de mercado alinhadas a uma audiência global. Mas também existe a oportunidade de investimento em infraestrutura, acessibilidade e práticas mais sustentáveis, que podem ampliar o legado cultural desses locais.
Como numa cena de cinema em que a câmera se afasta para revelar o cenário inteiro, esta aquisição revela o roteiro oculto do entretenimento contemporâneo: um jogo de forças entre capital global, memória local e as novas demandas por sustentabilidade e experiência. O desafio para Milão será preservar a singularidade do seu epicentro cultural enquanto abraça os recursos de uma nova produção em escala internacional.
Data da operação: 4 de fevereiro de 2026.


















