Por Chiara Lombardi — Em uma mistura de ironia contida e desapontamento profundo, Luciana Littizzetto voltou a ocupar o microfone em Che tempo che fa e leu uma carta dirigida à advogada e senadora Giulia Bongiorno. O alvo: a proposta de reforma do ddl sobre violência sexual que altera o princípio do consenso e reacende um debate que parecia estar caminhando para avanços legislativos contra a violência contra a mulher.
Com a leveza habitual que contrasta com a gravidade do tema, Littizzetto iniciou com uma piada sobre seus conhecimentos jurídicos — “meus conhecimentos param em Forum, quando Rita Dalla Chiesa apresentava”—, mas logo trocou o riso por um tom sério. A comediante explicou que estudou a proposta e ficou estupefata com a mudança: o princípio do “consenso livre e atual”, que exige um “sim” explícito para configurar consentimento, seria substituído por uma noção centrada na “vontade contrária ao ato sexual”, a ser avaliada conforme as circunstâncias.
Na prática, como Littizzetto disse, a alteração desloca o eixo da proteção: antes, bastava que fosse demonstrado que houve um consentimento; agora, a vítima teria de provar que manifestou um “não” — algo muitas vezes impossível quando o medo paralisa ou quando a violência acontece em contextos de intimidação. A comediante não economizou nas imagens: “Antes era: ‘eu quero, você quer. X’. Agora é: ‘eu te violo, depois você me diz não’. Dissenso. É um pouco diferente”.
O ponto de ruptura, segundo a carta, não é apenas técnico, é simbólico. A palavra contexto, que a proposta invoca para qualificar a ‘vontade contrária’, transforma o julgamento em algo elástico, sujeito à interpretação de quem decide — e não de quem sofreu. Littizzetto também destacou que, na mesma reforma, as penas previstas acabariam por ser reduzidas, ampliando o efeito de retrocesso.
Mais do que uma crítica jurídica, a carta expressa uma frustração social: a sensação de que, mesmo quando existe um amplo consenso político para enfrentar o feminicídio e a violência sexual, acordos internos e jogadas políticas fragilizam e esfarelam propostas positivas. A ironia final foi dirigida à própria defensora da proposta: “A senhora, advogada Bongiorno, tem se defendido das críticas — mas se não é capaz de se defender, quem se defende?”.
Como analista cultural, enxergo esse episódio como um pequeno espelho do nosso tempo: um roteiro político que tensiona o avanço dos direitos com recalques institucionais e narrativas que reconfiguram a verdade das vítimas. Não se trata apenas de uma disputa de palavras no Parlamento; é a semiótica do que consideramos prova, culpa e proteção. Quando a lei passa a exigir um “não” explícito, o corpo da lei deixa de ser um refúgio para se tornar um labirinto para quem busca justiça.
O caso também tem um recorte feminino paradoxal que dói: é uma mulher, legisladora, propondo alterações que muitas mulheres consideram um retrocesso. Esse fato não anula o debate democrático, mas intensifica o sentimento de decepção, porque mostra que a política do cotidiano ainda guarda, entre suas engrenagens, mecanismos que reproduzem a mesma violência que pretende combater.
Ao fim, a carta de Littizzetto não foi mero ataque pessoal; foi um convite à reflexão pública. É um chamado para que repensemos o roteiro oculto da sociedade, que volte a colocar a palavra consenso no centro do sistema jurídico e ético, e que não transforme o tribunal em câmera lenta onde a palavra da vítima é sempre posta em dúvida.






















